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Economista da Resistência: o legado Varoufakis

11.07.2015
 
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"E a ira dos credores é trunfo que ostento com orgulho" (Yanis Varoufakis, 6/7/2015).

Em todos os casos seria difícil para Yanis Varoufakis da Grécia permanecer no posto depois da vitória da coalizão Syriza no domingo. Jogando o que parece ser modalidade pessoal, dele, da teoria dos jogos, Varoufakis obteve o que queria: rejeição trovejante dos termos do resgate-arrocho, pelo desejo grego soberano. 

Quando baixar a poeira sobre essa tragédia grega, o ministro Varoufakis das Finanças da Grécia lá estará, como uma das maiores, se não das mais decisivas figuras que apareceram em letras grandes na história de todos nós. Soube ser agressivo e duro no confronto. Os seus companheiros ministros de Finanças da Eurozona se encolheram sob o fogo cerrado dos saberes de Varoufakis sobre alívio da dívida e termos de renegociação com a troika. "Eles me detestam unanimemente. Muito bom!"

Mas o estilo Varoufakis arranha e queima. É talento individual - por exemplo, permaneceu fora do partido Syriza, enquanto esteve no Ministério. Vive de mangas arregaçadas para a briga. Jamais foi visto de gravata. Quando os pugilistas aparecem, já o encontram aquecido.

A 'mídia' alemã foi imediatamente seduzida pelo novo gênero de economista guerrilheiro, com ar de flâneur. Foi convertido no "Bruce Willis" das negociações financeiras, quando um apresentador da rede de notícias ZDF não resistiu à comparação, num dos dias em que Varoufakis defendeu valentemente o forte grego, contra as flechas dos banqueiros. "Varoufakis é sem dúvida homem de grande carisma" - disse uma desfalecente Marietta Slomka. "Visualmente, é alguém que se imagina em filme como Duro de Matar 6. É personagem interessante." 

A revista Stern optou por metáforas marcadas pela antiguidade clássica, e viu o ministro grego como entidade esculpida em mármore. "Ele anda por Atenas montado numa grande motocicleta negra, nunca mete a camisa para dentro do cinto e irradia uma espécie de masculinidade clássica que se encontra mais em estátuas gregas."

Die Welt chegou às bancas com manchete forte "O que faz de Yanis Varoufakis esse ícone sexy". Havia ali um certo tom de tabloide, com coisas como "cabeça raspada, estilo cool e potente motocicleta Yamaha." As negociações da dívida esquentaram. Apesar de não ter "posto de joelhos qualquer dos credores", o professor de Economia "está agitando os ternos&gravatas da Europa com seu jeito descontraído e olharcool."

Em junho, seus modos surpreendentes, parte leão-de-chácara, parte pirata, já agitavam visivelmente os colegas do seu lado da cerca antiarrocho. A crise, mais que nunca, estava mostrando que a Grécia não é uma ilha, e até dentro do Syriza já se começava a discutir se o objetivo de Varoufakis não seria precisamente esse. Libertar a Grécia, dentro da Europa ou fora dela?

Varoufakis foi quem usou mais competentemente as imagens da guerra e do terror para descrever o terrível padecimento dos gregos. Antes da votação do domingo, o que ele disse sobre terrorismo econômico praticado pelos banqueiros credores cortou firme e fundo. Ao receber os resultados da votação, escreveu com paixão que "Oreferendum de 5 de julho de 2015 ficará na história como momento raro, quando uma pequena nação europeia levantou-se contra a servidão da dívida." 

A opção por moeda paralela com certeza sugeria que seria o fim da Grécia na União Europeia. A língua da servidão e da opressão dizia que, para salvar a Europa, Atenas teria de ser descartada.

Nos escritos de Varoufakis vê-se uma preocupação com o tema da Europa como uma doença do mercado moderno. A União Europeia, como escreveu em março, na revista de arte Brooklyn Rail de New York, passara a ser a grande máquina de converter cultura em mercadoria, servindo-se das ferramentas do Mercado Único e da burocracia. "Já há três décadas e até agora, o valor de troca varre o chão com qualquer outro tipo de valor."


"Nada há de errado com a ideia de um Mercado Único do Atlântico à Ucrâni, e das Shetlands a Creta. Fronteiras são feias cicatrizes sobre o planeta e quanto antes acabemos com elas, melhor. Não. O problema é que economias de mercado exigem demos poderoso para fazer o contrapeso, para estabilizá-las, para civilizá-las. Para manter civilizada a Europa, e potente a cultura europeia, um Mercado Europeu Único sempre exigiu um estado democrático tamanho gigante. Em vez disso, com os estados-nação em retirada, começou a chegar ao poder uma burocracia centralizada e de desdemocratização. A emergência de um mercado gigante e de uma burocracia colossal, levou a uma Aliança Nada Santa de valor de troca & Fiat burocrático, à custa dos valores culturais e políticos que os europeus produziram com tanta luta, ao longo dos séculos."

A esfera pública está em retirada já há anos; o demos foi caindo em silêncio, mesmo que o mercado continue a rugir com confiança selvagem. Fronteiras territoriais são assustadoras, mas não haver participação cidadã para moderar as forças econômicas assusta muito mais. Em 1978, quando Valéry Giscard D'Estaing da França e Helmut Schmidt da Alemanha anteviram um sistema monetário comum ante os restos mortais de Carlos Magno, figura totêmica da unidade europeia, estavam embarcando num ato de " 'peregrinação' euro-kitsch". Menos de 40 anos depois, a Europa foi efetivamente "dividida por uma moeda comum". 

Com a vitória do "Não", é hora de Alexis Tsipras voltar às mesas e conversar mais. Para tanto, foi preciso remover do campo de combate a arma-Varoufakis. Se interessa chegar a algum acordo, já ninguém espera que aconteça com o economista guerrilheiro na sala. É hora de recolher as armas.

"Imediatamente depois do anúncio dos resultados do referendum, fui informado de uma preferência, de alguns participantes do Eurogrupo e de variados 'parceiros', que apreciariam minha... 'ausência' de futuras reuniões; ideia que o Primeiro-Ministro considerou potencialmente útil para que ele alcance algum acordo. Por essa razão, estou deixando o Ministério das Finanças hoje (6/7/2015)."

Enquanto Varoufakis é afastado para a retaguarda, observando a arena de combates, o sistema financeiro grego está absolutamente sem fundos; carências crônicas manifestam-se por toda a economia; e alguns ministros das Finanças da Europa já pensam sobre como será a vida depois de uma potencial saída do euro. "Solução adequada" agora terá de envolver "reestruturação da dívida, menos austeridade, redistribuição a favor dos mais necessitados e reformas reais."

Ninguém familiar com esse episódio esquecerá que Varoufakis foi filho de uma crise nascida de um fracasso. Em vez conformar-se com a galinha molhada, como o premiêr Nikita Khrushchev, explicando sobre a importância de ceder em 1958, Varoufakis jamais desistiu de procurar a ave-do-paraíso. *****

 

7/7/2015, Binoy Kampmark, Counterpunch

 

 


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