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Empresas brasileiras lideram projetos de desenvolvimento na Venezuela

11.04.2013
 
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Aliança com Brasil, firmada durante os governos de Chávez e Lula, resultou em um incremento substancial da presença de companhias


Marina Terra e Vinicius Mansur | Caracas
Opera Mundi


Sob um calor siderúrgico, centenas de operários venezuelanos trabalham sobre e sob uma área de 140 hectares em Ciudad Piar, no estado Bolívar, a cerca de 700 km a sudeste de Caracas. Ao chegar ao terreno, apenas parte desses trabalhadores é visível. Outra está a até 7 metros abaixo do solo consolidando a planta da Empresa Básica Socialista Siderúrgica José Inácio Abreu e Lima.


A siderúrgica leva o nome do brasileiro que foi resgatado à história por Hugo Chávez e que comandou o jornal e tropas do Exército de Simón Bolívar no início do século 19. Também é brasileira a empresa encarregada do projeto, a Andrade Gutierrez (AG), responsável pela engenharia, suprimento e construção da planta, além de buscar o financiamento de US$ 860 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e grande parte da maquinaria necessária à obra orçada em U$ 3,8 bilhões.


A aliança estratégica firmada entre Venezuela e Brasil nos governos Chávez e Lula resultou em um incremento substancial da presença das companhias brasileiras no país vizinho, cujo portfólio de obras é estimado em US$ 20 bilhões, divididos entre Odebrecht, AG, Camargo Correia, Queiroz Galvão e Consilux.


Os frutos da aliança também foram colhidos em outros ramos da economia, já que o comércio bilateral saltou de US$ 880 milhões em 2003 para cerca de US$ 6 bilhões em 2012. Como as importações brasileiras foram de apenas US$ 996 milhões no ano passado, a Venezuela foi responsável pelo terceiro superávit da balança comercial brasileira, quase US$ 5 bilhões, só atrás da China e da Holanda (porta de entrada de toda a Europa).


Agora, pouco mais de um mês após a morte de Chávez e em meio à campanha para nova eleição presidencial, representantes de empresas brasileiras entrevistados por Opera Mundi analisam o atual cenário para investimento na Venezuela. Na visão delas, o país permanece sendo uma "terra de oportunidades" para a iniciativa privada brasileira.


Independência
"Viemos para ficar", salienta João Martins Jr., CEO da Queiroz Galvão na Venezuela. A empresa desenvolve desde junho de 2010 um projeto com foco no desenvolvimento da soberania alimentar no Vale do Quibor, Estado de Lara. Orçado em mais de 1,5 milhões de dólares, o Projeto Agrário Socialista Valle de Quibor deve ser concluído em até seis anos.


Para Martins, não cabe à empresa avaliar o cenário eleitoral, como "no caso da eleição do Maduro", mas fato é que existe uma "intenção bilateral de trocar experiências, fortalezas", destacando que um dos aportes que o Brasil tem a oferecer é seu know how no setor de infraestrutura. "Para isso estamos aqui. Se a relação mudar, teremos que avaliar. Depende do Brasil a nossa atuação na Venezuela", observa.


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Espartano da Fonseca, CEO em Caracas da Consilux, que desenvolve projeto de habitação no país, aposta em uma melhora das relações comerciais com a eleição de Maduro. Para ele, o fato de o atual presidente interino ter sido chanceler por seis anos do governo Chávez, mantendo contato estreito com experiências comerciais ao redor do mundo, deve beneficiar especialmente o modo de pensar do governo.


"A palavra final sempre foi de Chávez, e ele tinha capacidade de gerenciar. De uma forma ou de outra, todos os problemas acabavam chegando nele, e ele os resolvia", afirma Fonseca. De acordo com o empresário curitibano, caso eleito, Maduro tem a oportunidade de alterar a dinâmica de trabalho, como a de delegar poderes. "Ele tem a possibilidade de inaugurar uma nova forma de gestão com base nas experiências que conheceu", opina.


Alberto Moreira, presidente da AG na Venezuela, salienta que o momento é de forte comoção pela morte de um líder, mas não de paralisação do país. "E a nova eleição também não vai mudar nada. Nós não temos uma ligação política com nenhum lado. As coisas estão acontecendo normalmente na Venezuela", destaca. Moreira ressalta que os contratos foram firmados com um país, não com uma pessoa, não havendo razões para temor. "Nós confiamos muito na Venezuela", conclui.


Problemas
Com a alta do preço do petróleo em 2008 e o apoio do governo brasileiro, diversas empresas brasileiras se animaram a desenvolver projetos na Venezuela. No entanto, o cenário nem sempre foi estável, principalmente entre 2009 e 2010, quando o valor do barril caiu para US$ 40, em um contexto de crise econômica mundial.


Muitas companhias reclamam do atraso nos pagamentos do governo venezuelano, cujas divisas dependem quase que exclusivamente do petróleo. Reclamações também foram direcionadas ao planejamento das obras, por vezes o responsável direto pela demora na transferência do dinheiro. Dezenas de projetos foram parados ou cancelados. No entanto, para as empresas entrevistadas, a Venezuela permanece sendo uma "terra de oportunidades".


"Quando se vai à casa de alguém, não se coloca regras. Se vai ficar por um bom tempo, ou se adapta ou vai embora. Não foi nenhuma surpresa para nós a forma de trabalhar do venezuelano e a Queiroz Galvão tem envergadura para suportar situações como essa", afirma Martins Jr., após admitir que a empresa ficou sem receber em 2011. "A Queiroz confia que as coisas aqui funcionam, dentro da situação e da forma de atuar deles. Nós nunca paramos o projeto, ele sempre esteve no ritmo", conta.


Fonseca, da Consilux, não vê relação direta entre a queda do preço do petróleo e os atrasos de pagamentos. "Contratos foram fechados nessa época. O problema foi o planejamento. Qualquer país precisa definir quanto tem para gastar, fazendo uma projeção do ano e tem um limite de contratação", aponta. "É preciso se adaptar, porque as coisas não são rápidas. Mas depois que elas funcionam, tudo corre bem. As dificuldades existem em qualquer lugar, é uma questão de optar qual."


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Seguindo otimista, o presidente da AG revelou que ainda esta semana uma fatura da empresa foi paga pelo governo e, fiel ao estilo mineiro, emendou: "Uai, só vou dizer que nós estamos muito satisfeitos, não temos problema".


Integração de longo prazo
O primeiro encontro entre presidentes de Brasil e Venezuela aconteceu em 1973 e se pode contar nos dedos quantas reuniões tiveram até 1994, quando foi assinado o protocolo La Guzmania, institucionalizando a relação. Fernando Henrique Cardoso manteve três encontros com a autoridade máxima venezuelana e Lula, 28.


"É tardia esta aproximação. Nenhum um país que tenha um projeto nacional e soberano de desenvolvimento, tendo um vizinho com as maiores reservas de hidrocarbonetos do mundo, para não falar das várias outras, não se esforçaria para ter um projeto de desenvolvimento associado a ele. A Venezuela é estratégica", analisa Pedro Silva Barros, titular da missão do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) na Venezuela.


O economista destaca que além de seguir incrementando o comércio bilateral, os governos e iniciativas privadas de ambos os países necessitam aprofundar sua integração produtiva, a partir de uma política industrial regional.


A exportação brasileira para a América Latina se caracteriza pelo alto percentual de produtos manufaturados em comparação com a exportação realizada para o resto do mundo. No comércio Brasil-China, por exemplo, 95% do que o Brasil exporta são produtos primários, enquanto 40% de todo o produto manufaturado que o Brasil exporta vai para a América Latina, dando ao país superávits tão elevados que, segundo Barros, são insustentáveis no longo prazo.


"A forma de combater isso não é diminuindo as exportações brasileiras e não é adequado que seja apenas aumentando a importação brasileira. O desejável é que haja integração produtiva. Esse é um caminho para os próximos anos e que demandará muitos esforços", propõe.


Segundo Barros, o desenvolvimento associado aos seus vizinhos é condição fundamental para a continuidade do crescente projeto de inserção internacional levado a cabo pelo Brasil. "O Brasil sozinho terá uma limitação muito grande para a sua própria inserção. O país tem uma presença política internacional que é maior do que a sua presença econômica e é assim porque ele tem a legitimidade dos seus países vizinhos. Mas isso não vai se perpetuar no tempo", alerta.


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