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Breviário sobre a catástrofe de Wall Street

10.12.2008
 
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Breviário sobre a catástrofe de Wall Street

Walden Bello ( * )

Voando até Nova Iorque, na terça-feira passada, tive a mesma impressão que ao chegar a Beirute há dois anos atrás, no auge do bombardeamento israelita dessa cidade – a impressão de entrar numa zona de guerra. O agente da Imigração, ao saber que eu ensinava Economia Política, comentou, "Bom, suponho que vocês agora vão ter de rever todos os vossos livros". O condutor do autocarro deu as boas-vindas aos passageiros com as palavras: "Nova Iorque continua aqui, senhoras e senhores, mas Wall Street desapareceu, tal como as Torres Gémeas". Até os usualmente alegres programas de entretenimento matinais se sentiram obrigados a abrir com as más notícias, com um dos apresentadores atribuindo as responsabilidades aos "tubarões de Wall Street que se transfornaram em porcos". A cidade está em estado de choque e a maioria das pessoas ainda não pôde digerir por completo os ominosos acontecimentos das últimas duas semanas:

- um trilião de dólares de capital nominal desfez-se em fumo da abrupta quebra de 778 pontos em Wall Street, na segunda-feira negra número dois de 29 de Setembro, quando os investidores reagiram em pânico à rejeição pela Câmara dos Representantes do plano de resgate presidencial de $ 700 biliões de dólares às instituições financeiras no limiar da bancarrota;

- o colapso de um dos mais proeminentes bancos de investimento de Wall Street, o Lehman Brothers, seguido da maior falência bancária na história norte-americana, a do Washington Mutual, maior instituição de poupança e empréstimo do país;

- a efectiva nacionalização de Wall Street, com a Reserva Federal e o Departamento do Tesouro tomando todas as grandes decisões estratégicas no sector financeiro e, com o resgate do American International Group (AIG), o facto espantoso de que o Governo norte-americano agora dirige a maior companhia de seguros do mundo;

- para cima de 5 triliões de dólares em capitalização de mercado total foi apagada desde Outubro do ano passado, sendo que, destes, mais de 1 trilião de dólares se deveu ao desenrascanço dos titãs financeiros de Wall Street.

As explicações do costume já não são suficientes. Eventos extraordinários exigem explicações fora do comum. Mas primeiro, vejamos...

O pior já passou?

Não. Se alguma coisa resultou clara das decisões contraditórias da semana passada – permitir o colapso do Lehman Brothers e do Washington Mutual, enquanto se tomava o AIG e se arranjava a tomada do Merrill Lynch pelo Bank of America – não há qualquer estratégia para lidar com a crise, apenas respostas tácticas, como as respostas dos bombeiros a uma deflagração.

O resgate de $ 700 biliões de dólares aos maus títulos baseados em hipotecas detidos pelos bancos não é uma estratégia mas apenas um esforço desesperado para escorar a confiança no sistema, para prevenir a erosão da fiabilidade dos bancos e outras instituições financeiras, impedindo uma corrida massiva ao levantamento dos depósitos bancários como a que despoletou a Grande Depressão de 1929.

O que é que causou o colapso do sistema nervoso central do capitalismo? Foi a ganância?

A nossa velha conhecida ganância desempenhou a sua parte. É isto que Klaus Schwab, organizador do Fórum Económico Mundial - o jamboree anual da elite global nos alpes suiços – queria dizer quando advertiu, no princípio deste ano, a sua clientela em Davos: "Temos que pagar pelos pecados do passado".

Terá a Wall Street sido trapaceada por si própria?

Absolutamente. Os especuladores financeiros trapacearam-se a si próprios criando sempre novos e mais complexos contratos financeiros, como os derivativos que deveriam securizar e fazer dinheiro a partir de todas as formas de risco – incluindo exóticos instrumentos de "futuros", como os acordos de incumprimento creditício ("credit default swaps"), que permitem aos investidores apostar nas probabilidades de os próprios devedores institucionais do banco não serem capazes de pagar as suas dívidas! Foi este o negócio desregulado de muitos triliões de dólares que deitou abaixo o AIG.

A 17 de Dezembro de 2005, quando a 'International Financing Review' (IFR) anunciou os seus prémios anuais – um dos mais cobiçados troféus de prestígio na indústria dos títulos financeiros – teve isto que dizer: "[Lehman Brothers] não se limitou a manter a sua alargada presença no mercado, mas também conduziu a investida sobre os novos territórios de eleição... desenvolvendo novos produtos e modelando as transacções para servir fielmente as necessidades dos mutuários... Lehman Brothers é a mais inovadora nos territórios de eleição, fazendo coisas que não se vêm em mais lado algum."

Sem comentários.

Foi a falta de regulamentação?

Sim – toda a gente agora admite que a capacidade de Wall Street para inovar e pôr em circulação instrumentos financeiros cada vez mais sofisticados andou sempre muito à frente das capacidades reguladoras dos governos, não porque o Governo fosse incapaz de regular, mas porque a atitude neoliberal dominante, de laissez-faire, impediu os governos de vislumbrar mecanismos efectivos com que regular. O comérciomassivo em derivativos ajudou a precipitar esta crise, e o Congresso norte-americano preparou o caminho quando aprovou, no ano 2000, uma lei excluindo os derivativos da regulação por parte da Securities Exchange Commission.

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