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Rebelião, federalismo ou independência no Iêmen?

10.09.2015
 
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Em dezembro de 2013, as tensões aumentaram na província de Hadramaute, leste do Iêmen, onde o amplamente respeitado líder tribal dos hadramis xeique Saad Bin Habrish Al Hamuumi e dois guarda-costas foram mortos a tiros por soldados iemenitas na cidade de Seiyun. Em semanas, toda a região estava convulsionada pelarebelião tribal dos hadramis.


Começa a rebelião: as tribos forçam a suspensão das operações de petróleo 

A faísca que desencadeou a revolta não foi só os assassinatos, mas também a alegação, pelo governo do Iêmen, de que xeique Saad e os dois homens que o acompanhavam, também assassinados, seriam militantes da Al-Qaeda. Dia 10 de dezembro, a Confederação das Tribos de Hadramaute [ing. Hadramauth Tribes Confederacy (HTC)] lançou um ultimatum ao governo do Iêmen: exigia que (a) os assassinos do xeique Saad fossem entregues às tribos, para serem julgados; que (b) todos os serviços de segurança para empresas de petróleo operantes em terras dos hadramis passassem a ser feitos exclusivamente pelas tribos hadramis, em vez de continuarem em mãos de comandantes militares iemenitas corruptos; e que (c) o exército iemenita retirasse todas as suas forças de terras hadramis, no prazo de dez dias.

The HTC alertou que o não atendimento dessas demandas provocaria levante das tribos e guerra tribal em grande escala contra forças iemenitas em toda a província hadrami. A Confederação dos hadramis rejeitou um pedido formal de desculpas apresentado pelo Ministério da Defesa do Iêmen e pelo governo, por terem acusado falsamente o xeique Saad e seus guarda-costas de serem militantes da al-Qaeda.

Quando expirou o prazo do ultimatum, dia 20 de dezembro, a Confederação das Tribos Hadramautes respondeu imediatamente. Nas primeiras 24 horas, Hadramaute assistiu a tumultos e violência generalizados. Foram estabelecidos pontos de controle , pelas tribos, por toda a região. Todos os acessos por terra às áreas de produção de petróleo foram bloqueados - as tribos resistiram com sucesso contra vários ataques por soldados iemenitas para remover os bloqueios. Algumas empresas de petróleo suspenderam completamente as operações; as que continuaram a operar foram forçadas a trazer por avião todos os suprimentos necessários às operações.

Desde então vêm acontecendo repetidos confrontos armados entre combatentes da tribos hadramis e forças do exército do Iêmen, com muitas baixas entre os soldados iemenitas: num único confronto, dia  8 de fevereiro, morreram 12 soldados. Mais de uma dúzia de soldados iemenitas capturados nesses confrontos ainda estão sob custódia da Confederação da Tribos Hadramautes. A HTC também assumiu o controle e fechou uma estação chave de bombeamento no oleoduto de exportação, em Masila, que transporta óleo cru de todos os campos de extração até o terminal de embarque no litoral.

Em meados de fevereiro de 2014, a Confederação das Tribos Hadramautes conseguiu interromper completamente toda a produção de petróleo em Hadramaute, e o governo do Iêmen teve de buscar a intermediação da Confederação para fazer contato com as tribos hadramis. Dia 7 de março, o presidente Hadi prometeu uma "garantia" (aadaal) recorde, para haver negociação, de 202 rifles de assalto, 20 veículos de transporte e 1 bilhão de riyals iemenitas (US$4,6M). Em troca a Confederação das Tribos Hadramautes aceitou fazer uma trégua temporária, e aliviar os bloqueios aos campos de petróleo; o início das negociações ficou marcado para dali a dez dias.

Mas a trégua logo foi quebrada. No final de março, a Confederação das Tribos Hadramautes anunciou que o governo do Iêmen não pagara o 1 bilhão de riyals iemenitas nem iniciara as negociações no prazo prometido. As tribos novamente bloquearam todos os campos de petróleo nas terras dos hadramis.

Esse levante das tribos é sintoma, contudo, de aspirações mais amplas da população, que quer autonomia, até mesmo plena independência, do governo central de Sana'a. Essas aspirações baseiam-se numa identidade partilhada pelo povo de Hadramaute - região riquíssima, não só em petróleo, mas também em história.

Hadramaute: do óleo-incenso frankincense (olíbano) ao "cru" 

A origem dos hadramis confunde-se com o alvorecer da história mais antiga. Desde tempos pré-islâmicos, a geografia histórica estabelecida do sul da península árabe pôs o Iêmen no ocidente mais longínquo, antes de Hadramaute e depois de Dhofar, com Omã na ponta do extremo oriente da península.

Os hadramis creem que são descendentes de Qahtan, o filho do profeta Hud, trisneto do profeta Noé. Muitos também identificaram o profeta Hud com o profeta Eber do Velho Testamento: a peregrinação anual à tumba do profeta Hud, nas terras dos hadramis, tem história milenar.

Na era cristã, Mateus imortalizou no seu Evangelho os três reis (ditos "Magos") que trouxeram presentes de ouro, mirra e incenso [óleo essencial frankincense] ao menino Jesus em Belém. Historiadores postularam que os túmulos desses três reis foram descobertos em Hadramaute pela imperatriz Helena, bizantina, no século 4 da era cristã, que os sepultou na catedral Hagia Sofia de Constantinopla. No século 12 da era cristã, os três reis foram novamente movidos para onde estão sepultados até hoje, em sarcófagos triplos de ouro, na Catedral de Colônia, na Alemanha.

Verdade é que os presentes trazidos pelos três reis revelam bem clara o local de origem, no sul da Arábia. A antiga Rota do Incenso partia de Hadramaute e Dhofar, avançando pelo Iêmen e pelos desertos da península arábica para transportar incenso e mirra até o Egito, o império bizantino e além. Graças ao monopólio secular sobre o incenso e as minas de ouro hoje já esquecidas há muito tempo, os antigos impérios Hadramaute, de Sabá e Himyari que governavam o sul da Arábia acumularam magnífica fortuna. Esses impérios do sul da Arábia foram em diferentes ocasiões predominantemente judeus ou cristãos, até o advento do Islã no século 6 da era cristã.

Ecos longínquos desse passado ancestral ainda persistem na Hadramaute contemporânea. Em 2009 foram descobertas imensas jazidas de ouro em Wadi Medden, na província de Hadramaute, a oeste da cidade de Al-Mukalla. A jazida inexplorada recém descoberta tem estimadas 2 milhões de onças de ouro, mais de US$4 bilhões de dólares aos preços de mercado. Ainda se veem em Hadramaute árvores nativas de mirra e incenso, e suas resinas perfumadas ainda são usadas pelos locais para produzir bukhur (diferentes incensos perfumados).

A história moderna introduziu muitas mudanças em Hadramaute. Em agosto de 1967, revolucionários da Frente de Libertação Nacional do Sul do Iêmen Ocupado depuseram o sultanato que ali governava, de Al-Quaiti (um dos Protetorados Britânicos a Leste de Áden desde os anos 1930s). Essa revolução incorporou a região de Hadramaute à República Popular do Sul do Iêmen - apesar de o sultão Ghalib Al-Quaiti ter dito à BBC que a Assembleia Nacional estaria sendo convocada para decidir se a região de Hadramaute seria incorporada ao Iêmen ou a Arábia Saudita, ou se seria criado um estado independente de Hadramaute. Esse sultão Ghalib ainda vive num exílio incômodo em Riyadh, Arábia Saudita.

Em 1990, Hadramaute e o resto do Iêmen Sul foram unidos ao Norte mediante acordo mal elaborado e precipitado entre o líder iemenita do sul Ali Salim Al-Beidh, e o presidente do Iêmen Norte Ali Abdullah Saleh. As relações entre os dois Alis deterioraram rapidamente, e Al Beidh, nativo de Hadramaute, declarou a secessão do Iêmen Sul, em 1994. A guerra civil que se seguiu resultou no exílio de Al Beidh para o Sultanato de Omã e na vitória do regime de Saleh.

Saleh foi depois forçado a renunciar nos termos da Iniciativa do Conselho de Cooperação do Golfo, de novembro de 2011, e o presidente Abdo Rabbo Mansur Hadi foi eleito em fevereiro de 2012 como novo presidente do Iêmen. A Conferência Diálogo Nacional do Iêmen que foi iniciada logo depois constituiu uma comissão, que, em janeiro de 2014, decidiu que a região de Hadramaute seria convertida em um dos seis estados de uma nova República Federal do Iêmen. Agora [o artigo é de abril de 2014 (NTs)], uma comissão de 17 membros está encarregada de redigir uma Constituição para o novo Iêmen federal.

Estado Federal de Hadramaute

O Estado Federal de Hadramaute reunirá os ex-governoratos de Hadramaute, Al Mahrah e Shabwah, além do governorato, de apenas dois meses de existência, da ilha Socotra, no Oceano Índico. Proposta anterior, de batizar o novo estado como Região Oriental, em vez de Hadramaute, foi recebido com zombaria pelos hadramis. O Estado Federal de Hadramaute será separado da cidade sulista de Áden e de suas regiões satélites de Lahj, Abyan & Al Dhale. Essa divisão não é surpresa: as tensões entre facções de Hadramaute e de Áden dentro do movimento separatista Harak no sul do Iêmen já são visíveis há vários anos, refletindo divisões históricas do regime socialista que governou o sul.

O Estado Federal de Hadramaute cobrirá mais de 50% da massa territorial do Iêmen e inclui mais de 80% dos campos iemenitas de petróleo que estão produzindo. Vastos campos de gás natural permanecem sem ser explorados, e há reservas potencialmente ricas de gás e petróleo ainda a serem exporadas no deserto "Quarteirão Vazio" que se estende até a fronteira com a Arábia Saudita. O veio de estimados US$4 bilhões em ouro descoberto em Wadi Medden tampouco está sendo explorado.

Diferente nisso de Sanaa e das regiões montanhosas que a cercam, a água é farta em Hadramaute. O aguífero está a pouca profundidade, cerca de 30 metros em áreas habitadas de Wadi Hadramaute. O litoral de Hadramaute, de mais de mil quilômetros, inclui costas do Mar da Arábia, do Golfo de Áden e águas do Oceano Índico em Socotra; e há ali potencial ainda não explorado como base para projetos pesqueiros e de aquacultura. A população do novo estado de Hadramaute é de apenas 2 milhões de pessoas, apenas 8% da população total do Iêmen, de mais de 25 milhões de habitantes.

Em teoria, portanto, o novo estado federal de Hadramaute tem prognóstico de economia próspera e pode esperar apoio da ampla e economicamente rica diáspora hadrami no sudeste da Ásia e nos Estados Árabes do Golfo da Arábia Saudita e Abu Dhabi, que há muito tempo fogem de qualquer investimento em Hadramaute, por conta da corrupção perpétua do estado iemenita no regime de Saleh.

Mas o futuro promissor de Hadramaute continua a ser assombrado pelos incidentes sempre crescentes de violência praticada pela Al-Qaeda e outros atores obscuros, por motivos sempre mistificados e mais e mais obscuros, e, também, pelo espectro da corrupção e do apadrinhamento no seu próprio setor de petróleo.

Apadrinhamento e poder na mais rica província do Iêmen 

Os hadramis dizem, há muito tempo, desde a guerra civil de 1994, que o regime de Saleh os marginalizou sistematicamente, afastando-os das boas oportunidades de emprego e de negócios na indústria do petróleo na região. Também têm dito que a massiva produção de petróleo em Hadramaute não gerou desenvolvimento econômico local igualitário nem, sequer, serviços sociais básicos, como eletricidade, água e atendimento local à saúde dos hadramis. Moradores de algumas cidades e vilas próximas das áreas de produção de petróleo de Hadramaute têm reclamado da poluição dos lençóis subterrâneos de água, efeito de políticas irresponsáveis de perfuração; e do aumento não explicado, assustador, do número de casos de câncer. O governo ignora completamente esses reclamos, que até hoje não foram investigados nem pelo estado nem pelas empresas de petróleo.

No governo de Saleh, as Empresas Estrangeiras de Petróleo (EEPs) operavam no Iêmen servindo-se de modelo de negócio relativamente bem conhecido, um bem desenvolvido sistema de apadrinhamento centrado nos principais atores do governo, agentes comeciais, líderes militares e empresários, todos conectados, em diferentes níveis com o regime.

Concessões para explorar o petróleo e outros serviços conexos nos contratos de gás e petróleo em Hadramaute eram dados a indivíduos e a empresas conectadas ao regime Saleh. Ironicamente, muitos dos empresários beneficiários daqueles favores se 'reposicionaram' depois de 2011, convertendo-se em zelosos "revolucionários" anti-Saleh - e continuam a lucrar, como antes, em praticamente os mesmos negócios.

Leis que ordenam que as EEPs contratem 50% dos empregados em comunidades locais das áreas concedidas para exploração, como é o caso em Hadramaute, são ignoradas quase completamente, não só pelas empresas, mas também pelo governo do Iêmen. E comandantes militares também recebem generosos contratos para prestar serviços de segurança as EEPs que operam em Hadramaute.

Esses generais usaram soldados e armas iemenitas sob seu comando, inclusive patrimônio do estado iemenita, para prestar serviços privados de segurança, cobrados e lucrativos, em vez de cumprir o próprio dever. Protestos de hadramis exigindo emprego nas empresas de petróleo foram reprimidos com violência pelos militares do Iêmen e, como as próprias leis, completamente ignorados pelas EEPs.

A transição política no Iêmen pós-Saleh administrada pela ONU não trouxe qualquer alívio para a província de Hadramaute. As desigualdades das políticas da era Saleh continuam, agora com a visível incapacidade, do governo de Hadi, para instituir as muito necessárias reformas no setor de petróleo do Iêmen.

Relatório do Parlamento do Iêmen, de 2014, sobre o setor de petróleo do país afirmava que as EEPs que operam nas regiões produtoras de petróleo de Hadramaute, Shabwah e Marib pagaram um total de US$238 milhões cada uma a generais do exército do Iêmen por "serviços de segurança". O relatório diz que o comandante de uma brigada de blindados em Hadramaute recebeu diretamente mais de US$2 milhões por mês, de uma empresa canadense de petróleo, para proteger suas operações. Esses pagamentos foram feitos sem qualquer supervisão do Ministério da Defesa do Iêmen.

Por trás das manchetes: 'Al-Qaeda na Península Arábica' [ing.AQAP] em Hadramaute

Por entre a fumaça cada vez mais tóxica da corrupção no setor do petróleo, a rebelião tribal e o discurso político sobre federalismo, a violência continuou a escalar em Hadramaute.

Ataque dia 4 de abril contra um posto de controle do exército perto da cidade de Shibam matou cinco soldados; dias depois, quatro paraquedistas foram mortos, quando atiradores, usando uniformes militares, atacaram um posto da Segurança Central em Brum, na estrada litorânea para Shabwah a leste de Hadramaute. Dia 24 de março, um ataque antes do raiar do dia, por homens armados, contra outro posto também da Segurança Central em Sayhut, cidade do leste de Hadramaute, matou 20 paraquedistas. Horas depois, uma mina terrestre modificada plantada ao lado da estrada próxima do oásis de águas termais de Al Hami causou explosão gigante - moradores da região dizem que o alvo foi um comboio de veículos militares do Iêmen que trafegava para o posto de controle de Sayhut que fora atacado mais cedo. Dois dias antes do ataque em Sayhut, foi atacado um posto de controle militar na cidade de Al Mukalla, que fazia a guarda da residência do comandante da 2ª Região Militar. Dois soldados iemenitas e dois atacantes não identificados foram mortos.

Jornalistas, a maioria dos quais vive em Sana'a, frequentemente atribuem esse tipo de incidente violento em Hadramaute a militantes da Al Qaeda; aconteceu o mesmo nos ataques de 24 de março.   Até a mídia oficial do governo do Iêmen e veículos dos militares tendem a culpar mecanicamente a Al-Qaeda, quase sempre sem qualquer tipo de prova ou indício concreto e citando, como fontes, "funcionários do governo que pediram para não ser identificados".

Dia 4/6/2013, tanques do exército do Iêmen, blindados e soldados foram deslocados para a cidade hadrami de Ghail Bawazeer, famosa por suas fontes naturais e as sempre verdejantes palmeiras e plantações de tabaco. Muitos residentes ficaram perplexos quando, nos três dias seguintes, as forças do exército, com apoio de helicópteros armados, atacaram com tanques de artilharia, foguetes e armas de assalto algumas fazendas locais abandonadas e áreas de terreno não ocupadas. Trabalhadores dos serviços públicos de eletricidade, que consertavam fios danificados foram atacados pelos helicópteros. Resultado, toda a região ficou sem energia elétrica durante cinco dias.

Dia 10 de dezembro, o Ministério de Defesa do Iêmen declarou que a ação fizera abortar um plano da Al-Qaeda na Península Arábica para estabelecer um emirado islâmico em Ghayl Bawazir. Segundo o ministério, o exército teria matado sete militantes e prendido 13, inclusive Omar Ashur, emir da Al-Qaeda em Ghayl Bawazir, e seu filho Abdullah. A imprensa-empresa internacional repetiu, palavra a palavra, a narrativa oficial. Dia seguinte, 11/12, o ministério retificou a declaração da véspera e declarou que Omar Ashur não era líder da AQAP: o verdadeiro líder era seu filho, Abdullah Omar Ashur. Mais um dia, e nova declaração, para informar que Abdullah Omar Ashur, líder da AQAP, não era o filho Abdullah de Omar Ashur.

Essa comédia bizarra de diz-que-disses causou uma onda de indignação em Hadramaute. Jamais houve qualquer notícia de presença da AQAP em Ghail Bawazir, embora fosse ninho sulista de secessionistas com fraco controle pelo governo do Iêmen. Muitos políticos hadramis e até oficiais de segurança exigiram que o Ministério da Defesa fornecesse detalhes sobre os sete militantes daAQAP mortos, mas continuam esperando até hoje.

Na verdade, Omar Ashur era um funcionário civil veterano, nascido em Ghail Bawazir e diretor de alfândega no posto da fronteira saudita-iemenita de Al-Wadi'ah. Não tinha qualquer laço com AQAP nem com qualquer outro grupo militante. Mas no dia em que foi preso, foi imediatamente demitido e um novo diretor de alfândega foi logo nomeado pelo governo do Iêmen. A verdade, diz Omar Ashur, é que a ofensiva em que estava empenhado contra o contrabando naquele ponto da fronteira foi a única razão para as acusações que gente importante no governo do Iêmen inventou contra ele.

Depois de algumas semanas de prisão em Sanaa, Ashur, seu filho Abdullah e 11 outros presos na mesma 'ação' foram libertados. Não há qualquer acusação contra eles e não receberam nem desculpas do governo do Iêmen. Mas Ashur não pôde reassumir seu emprego. No início desse ano, ele processou o governo, exigindo reparação pela demissão e pela prisão. Dado o estado terminal do Judiciário no Iêmen, parece bastante improvável que se faça justiça.

E quanto à conversa, pelo governo do Iêmen, fartamente noticiada no país e no exterior, segundo a qual a AQAP teria planos para estabelecer um emirado islâmico em Ghail Bawazir? Nunca mais se falou no assunto, depois que até a Al-Qaeda anunciou que Ashur nada tinha a ver com o grupo.

Cui Bono? [A quem o crime beneficia?]

As fortunas que generais iemenitas estão acumulando privadamente, com o que as EEPs lhes pagam podem ser uma razão básica para o surto incontrolável de violência em Hadramaute, que só cresce desde 2012. Não é coincidência que, ao implementar a restruturação dos militares, o presidente Hadi tenha substituído vários oficiais militares de exército e da segurança, nas regiões de petróleo em Hadramaute.

Seria irrealista pensar que esses comandantes militares, subitamente privados daqueles milhões de dólares mensais, não reagissem ou resistissem de algum modo. De fato, muitos em Hadramautes têm afirmado que os atos de violência jamais explicados e a série infindável de assassinatos de militares em Hadramaute são manifestações de conflitos internos entre os próprios militares, em disputa pelos lucrativos contratos de segurança com as EEPs.

Relatório recente divulgado por jornalista que trabalha no Iêmen, Casey Coombs, constata que, apesar da prodigiosa propaganda, a "AQAP nunca reivindicou a autoria ou responsabilidade direta pelo número crescente de assassinatos de oficiais militares e da segurança do Iêmen desde o início do governo do presidente interino Abd Rabu Mansur Hadi, no início de 2012."

Bem diferente disso, a imprensa estatal iemenita apresenta a violência em Hadramaute como se fosse alimentada pela AQAP, mesmo que em inúmeras ocasiões funcionários não identificados tenham feito relatos ou apresentado versões contraditórias, como se viu nos incidentes de Omar Ashur e do xeique Saad. Com frequência o que diz o governo parece visar a encobrir os fatos e a desviar a atenção dos jornalistas para longe dos reais criminosos, não a elucidar alguma coisa. As falsas alegações sobre atividade da AQAP lança sérias dúvidas sobre a veracidade do que a inteligência militar e de segurança do Iêmen dizem sobre Hadramaute, que os locais apoiariam as operações de contraterrorismo e os ataques por drones dos EUA na região. Fato é que o que a mídia internacional noticia sobre ataques por drones no Iêmen é 'informação' recolhida de ativistas nas plataformas de mídias sociais, como Twitter.

A guerra dos drones 

Drones dos EUA caçando militantes da AQAP é visão frequente nos céus de Hadramaute, desde o primeiro ataque próximo da cidade de Shibam, dia 17 de maio de 2012. Embora os locais aprovem quando acontece de militantes da AQAP serem atingidos nos ataques pordrones, morrem também muito civis inocentes.

Não há programa nem para investigar as mortes, no governo do Iêmen, muito menos para determinar alguma reparação por essas mortes de não combatentes em Hadramaute. Logo depois de alguns dos ataques por drones, grupos armados e mascarados chegam rapidamente e recolhem amostras dos cadáveres. Os locais não sabem se são equipes do contraterrorismo dos EUA ou do Iêmen, ou se são militantes da AQAP.

Algumas mortes ficam como silenciosas notas de pé de página nos relatórios da guerra dos drones no Iêmen, que ninguém menciona ou comenta na mídia. No início desse mês [abril de 2014], os cadáveres de três homens mortos por drones dia 6/9/2012 em Al-Hashm foram finalmente enterrados por habitantes da vila: ninguém jamais apareceu para examinar os corpos, que foram enterrados sem identificação. Dia 11/9/2012, foram encontrados 15 cadáveres numa área desértica, em Al-Abr, depois de uma semana de ataques repetidos, por drones, em Hadramaute. O ministro do Interior anunciou que a identidade dos mortos estava sendo verificada. Nunca mais se falou do assunto.

Os drones norte-americanos também causam grande alarme em comunidades hadramis. Homens e mulheres que trabalham nos campos param de trabalhar quando avistam um drone, os pais não deixam as crianças sair à rua. A jornalista Saeed Al-Batati que trabalha na cidade de Al Mukalla, escreveu recentemente sobre a morte deHamzah Bin Dahaman, de apenas 15 anos. A saúde de Hamzah começou a deteriorar-se desde que ele presenciou um ataque pordrones dos EUA em dezembro de 2012 perto de sua casa na cidade portuária de Shihr, em Hadramaute. O irmão contou que Hamzah "berrava de medo" e começou a "não dizer coisa com coisa", depois que viu os cadáveres queimados e despedaçados de cinco militantes da AQAP mortos num ataque por drones.

De modo geral, a maioria dos hadramis sentem que a presença daAQAP e os consequentes voos e ataques dos drones norte-americanos são mais uma praga, lançada sobre Hadramaute pelo governo na distante Sanaa.

Retomando o controle: Hadramaute e a independência do sul 

Dia 31/1/2014, um grupo de homens armados atacou um posto militar de controle próximo à cidade de Shibam em Wadi Hadramaute e matou 18 soldados. Mais uma vez, a imprensa-empresa internacional 'noticiou' que 'suspeita-se de militantes da Al-Qaeda' que teriam montado o ataque; como fonte, citavam-se funcionários que pediram para não serem identificados. Até hoje, a AQAP não reclamou qualquer crédito pela matança em Shibam.

Mas a imprensa-empresa ocidental absolutamente não vê outra obscura organização militante que surgiu recentemente sobre o palco em Hadramaute. Autodenominadas "Brigadas de Libertação do Sul" [ing. Liberation Brigades of the South (LBS)], o grupo distribuiu umadeclaração a alguns veículos na província de Hadramaute, dia 15 de fevereiro, na qual se apresenta como autor do ataque em Shibam e, também, de um duplo ataque em Al Mukalla, capital provincial de Hadramaute, dia 14 de fevereiro. As Brigadas LBS publicaram também um vídeo de seu ataque em Al Mukalla, no qual se veem dois militantes atirando com um lança-granadas contra a Diwan, a sede administrativa do governorato de Hadramaute na capital.

Na declaração, as Brigadas da Libertação do Sul avisavam que todos os pontos de controle, alojamento e campos do "Exército Iemenita inimigo em Hadramaute" passavam a ser, todos, alvos estratégicos para seus combatentes, e que [as Brigadas] "acreditam no direito do povo do sul à liberdade e à independência e a abraçar todas as opções que ajudem a alcançar sua liberdade e independência."

No mesmo dia, houve um anúncio em Áden da criação de uma Frente Nacional para Libertação e Independência do Sul e eleição do comando interino, encabeçado pelo líder Harak em Hadramaute e aliado próximo do exilado Al Beidh, xeique Ahmad Bamuallim. Poucos dias depois, uma histórica reunião em Beirute marcou uma reaproximação entre os hadramis Hassan Baoum, líder dos Haraks, e Al Beidh, assinalando que as fileiras das lideranças hadramis voltam a se recompor, depois de muitos anos de disputas. Avaliação bem clara sobre o Diálogo Nacional Iemenita é o fato de que esses três líderes hadramis recusaram-se a participar daqueles encontros.

Se esses movimentos marcam clara deriva na direção da independência da província de Hadramaute é questão aberta. A região de Hadramaute, com vastos recursos de petróleo e gás e população relativamente pequena, é perfeitamente capaz de se autossustentar, independente não só de Sana'a, mas também de Áden. Em remontagem pouco fiel aos fatos históricos, mas politicamente conveniente, muitos hadramis referem-se à criação do Iêmen Sul, em 1967, como uma ocupação estrangeira por forças de Áden - seguida por uma segunda ocupação por forças do Iêmen em 1994, duas ocupações que impediram a planejada criação do estado independente de Hadramaute.

Essa opinião vem ganhando tração e parece ser apoiada pelos sauditas bem como por alguns empresários-magnatas hadramis muito ricos, com base na Arábia Saudita. Até o há muito tempo esquecido ex-sultão hadrami, Ghalib Al Quaiti, exilado na Arábia Saudita desde 1967, acaba de reemergir e chefia uma organização sediada em Londres para promover a independência do estado de Hadramaute. Não é crível que o movimento de Al Quaiti tenha sido feito sem consulta e consentimento dos sauditas - porque é a ressurreição do objetivo, que hiberna desde a partida dos britânicos, de uma união entre a província de Hadramaute e o Reino da Arábia Saudita.

O interesse estratégico da Arábia Saudita numa Hadramaute independente é bem claro - há muito tempo o reino procura um oleoduto sul, até o Golfo de Áden para suas exportações de cru. É eloquente que, enquanto os sauditas constroem muto de 1m de altura ao longo da fronteira oeste entre Iêmen e Arábia Saudita, não há sinais de muro algum ao longo dos 500 km de fronteira com a província Hadramaute. Cerca de 1,5 milhão de nascidos em Hadramaute que residem hoje na Arábia Saudita, para negócios, trabalho ou estudos. Na verdade, muitos membros das tribos hadramis de Al-Awaamir, Al-Sai'aar e Al-Manahil, cujas terras atravessam a fronteira, vêm recebendo cidadania saudita ao longo da última década.

No quadro de um novo estado federal do Iêmen, a província Hadramaute continua a escapar para cada vez mais longe do controle governamental iemenita, enquanto se agravam os múltiplos problemas criados pelo velho Iêmen. A região ainda é um caldeirão fervente de militantes da Al-Qaeda, generais em guerra entre eles, petróleo e corrupção, drones norte-americanos mortíferos, tribos furiosas e sulistas separatistas. 

Como as serpentes peçonhentas aladas que o historiador grego Heródoto contou que desde tempos imemoriais montavam guarda em torno da preciosas árvores de frankincense de Hadramaute, essas questões modernas ameaçam, fundamentalmente, o futuro de Hadramaute como parte de um sistemas iemenita federal.

Duas décadas de uma República do Iêmen disfuncional demonstraram uma verdade bem clara aos hadramis: a unidade do Iêmen é ideal que permanece como aspiração muito nobre, mas completamente divorciada da realidade. *****

22/4/2014, Haykal Bafana, Muftah

 


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