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"Esta Economia Mata"...

10.02.2014
 

A "Alegria do Evangelho" do Papa Francisco, é uma séria e corajosa exortação aos Católicos e não só... A advertência serve também para aqueles que estão no Topo da Pirâmide Social. Nesta sua primeira Carta Apostólica escreve o que o Diabo não deseja ouvir, surpreendendo inclusive os círculos intelectuais e políticos habitualmente críticos da Igreja Católica. Ninguém, na verdade, não se devia surpreender.

O papel fundamental do Bispo de Roma é proteger o povo do arbítrio dos Senhores do Mundo e guiá-lo segundo os ensinamentos de Cristo. Além disso, como não podia deixar de ser, o atual Sumo Pontífice, tem uma especial preocupação para com os mais desfavorecidos, da qual deu grande testemunho durante o seu apostolado nas periferias pobres de Buenos Aires.

Por outro lado, o conteúdo do seu documento, só é novidade para quem ignora a vasta documentação apostólica sobre a Doutrina Social da Igreja, que remonta a meados do Século XIX, com o Papa Pio IX, e que surgiu em resultado dos abusos da Revolução Industrial sobre os operários. Daí não nos admirarmos no seu engajamento social quando escreve:

"Assim como o mandamento «não matarás», estabelece um limite claro para salvaguarda do valor da vida humana, assim também devemos hoje dizer «não roubarás» à Economia de exclusão e de desigualdade social." Para concluir: "Esta Economia mata."
Também não nos admiraria se entretanto o "Poder Oculto" dos "Concentradores de Riqueza", que se esconde nos bastidores das organizações internacionais, retome a campanha de desinformação contra o Papa e a Igreja que lidera. As últimas notícias sobre a Pedofilia, um mal transversal à Sociedade, dadas sem mais, esquecendo que o Papa Francisco recentemente desordenou 400 clérigos, o confirmam.


A Doutrina Social da Igreja não vê na riqueza um mal em si. Somente a condena quando não cumpre o papel social que lhe compete, ou seja, de partilha do produto do Trabalho, que é efetivamente um bem social, através do justo Salário. Ora uma excessiva Concentração de Riqueza, além de um problema de natureza ética, significa que o Capital não está a cumprir tal papel. Pelo contrário está a destruir a Economia e ao fazê-lo, está a gerar pobreza e exclusão. Daí que o Papa Francisco esteja cheio de razão ao dizer que "Esta Economia Mata".

O Neoliberalismo está de facto a trair todas as espectativas de Fruição Económica e de Mobilidade Social, prometidas pelo Capitalismo na sua origem, que, em última análise, terá como consequência o regresso à Barbárie.


Robert B. Reich, ex-Secretário do Trabalho da Administração de Bill Clinton, no seu livro "After Shock - A Economia que se segue e o Futuro da América", no Capitulo 45, "Como o rendimento concentrado no topo prejudica a Economia", esclarece o seguinte: "Quando o rendimento está concentrado em relativamente poucas mãos, a procura global de bens e serviços contrai-se porque os muito ricos não gastam nem de perto tudo o que ganham.

As poupanças deles são acumuladas para circularem numa fúria de especulação ou, sobretudo nos nossos tempos, para serem investidos no estrangeiro." Os "Concentradores de Riqueza" não consomem proporcionalmente aos seus rendimentos porque simplesmente não precisam. Se juntarmos a este facto, a política da desvalorização do Trabalho, que pressupõe a Austeridade, a Procura reduz-se ao indispensável para sobreviver, retirando à Economia o dinamismo necessário para crescer.

Não crescendo, aumenta o desemprego e os Estados arrecadam menos impostos, facto que levará aos Governos a dependerem cada vez mais dos Credores Internacionais, os mesmos que Concentram a Riqueza Mundial. Em tal clima económico a pobreza e a exclusão tendem a aumentar.


Em Portugal a pobreza só ainda não é de miséria absoluta porque organizações, como a Cáritas, as Misericórdias e as IPSSs (Instituições Particulares de Solidariedade Social) tem apoiado quase metade da população do País (4,5 milhões de pessoas). Mas estão prestes a rebentar pelas costuras... se, se não houver um volte face na lógica da Economia Neoliberal, que de tudo quer fazer negócio.


Os números do recente relatório da Oxfam Internacional, "Governar para as Elites: sequestro democrático e desigualdade económica", confirmam as preocupações do Papa Francisco e as nossas. Segundo aquele documento, as 85 maiores fortunas do mundo com um valor patrimonial de 1,7 triliões de dólares, detém o equivalente ao rendimento total de quase metade da população mundial, ou seja, 3,5 mil milhões de pessoas, o equivale a 62,5% da população pobre do Planeta!!! Facto, que a Diretora-executiva daquela organização, Winnie Byanyima, considera ser "...chocante que no Século XXI metade da população do mundo tenha menos riqueza que uma minúscula elite que poderia caber confortavelmente num autocarro de dois andares."

Mais, de acordo com os dados colhidos por esta ONG britânica em 24 países desenvolvidos e em desenvolvimento, a Concentração de Riqueza cresceu nos últimos 20 anos. E a pobreza também, acrescentamos nós.

Esclarece que, não obstante a Crise Financeira de 2008, nos USA 1% da população arrecadou 95% da riqueza gerada em 2009. Aqui vale citar o recente ranking publicado pela revista Exame sobre o crescimento das 25 maiores fortunas em Portugal, no ano de 2013. Valorizaram 16%!!! Olha se não houvesse crise...Voltando ao documento da Oxfam, este informa ainda que "Globalmente, os indivíduos e companhias mais ricas escondem triliões de dólares de impostos numa rede de Paraísos Fiscais no mundo todo. Estima-se que 21 triliões de dólares estejam escondidos sem registos". Ora toma, que é democrático!

E anda Passos Coelho preocupado com o IVA (Imposto de Valor Acrescentado) do consumo dos portugueses...

Artur Rosa Teixeira
(artur.teixeira1946@gmail.com)


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