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Nós e os nossos vizinhos orientais: semelhanças e diferenças

09.11.2016
 
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Se existe hoje no Brasil um líder político propondo e discutindo uma forma de recuperar a importância das esquerdas no cenário nacional, este político é Tarso Genro.

Independentemente das conversações que deve estar mantendo com outras lideranças, ele tem dedicado também seu tempo para expor - sempre com muita clareza e didática- suas posições, nos espaços que dispõe hoje na mídia alternativa (principalmente o site Sul 21), já que a mídia tradicional raramente lhe abre as portas.

No seu último artigo, após uma análise realista sobre os erros que a esquerda brasileira vem cometendo sistematicamente, ele propõe um surpreendente olhar sobre a experiência política do vizinho Uruguai.

"Depois do fracasso estrutural da política de alianças do PT, que vem desde  -pelo menos -  a metade do primeiro Governo Dilma, da continuidade das alianças pragmáticas e até mesmo sem princípios, que tanto nós - como o PCdoB -  fizemos nestas eleições municipais; da derivação vergonhosa do PSB para o campo neoliberal; depois, ainda, da falência da política "proletária" pura do PSOL, que variou desde os desejos de aliança com Marina, até demarcações permanentes para se construir "contra o PT"  - assumidas com amizades coloridas constrangedoras com a  Rede Globo - posições embaladas com promessas de "secretariados técnicos" e extinção de CCs  - depois de tudo isso -  seria bom dar uma olhada nas lições que vem do "oriente", do Estado Oriental do Uruguai. Quem sabe seria bom se nós nos despíssemos, sem cerimônia, perante a nossa base, com vista a buscar um mínimo de unidade política e reconquistar sua confiança".

A partir dessa avaliação inicial, Tarso analisa a construção da chamada Frente Ampla e chega a esta conclusão

 "Depois da década de sessenta, dos duros noturnos ditatoriais e das lutas sem trégua contra a ditadura, creio que pode se dizer que a Frente Ampla é uma experiência exitosa, de como os partidos de esquerda e organizações democráticas da sociedade, forjaram uma alternativa popular e democrática, dentro da ordem, para valorizar a democracia e enfrentar a vocação totalitária do capital financeiro, que programa derrotar o Estado Social.  Nesta experiência é que o PT e os demais partidos de esquerda e democrático -progressistas - ouso dizer - deveria m se inspirar, para enfrentar os duros anos que seguem ao golpismo no Brasil e à aprovação da PEC 241. Inspiração não é cópia, mas busca de fontes para pensar o presente, de forma a que se condensem, nas suas conclusões, passado e futuro".

Tarso não está sozinho nessa valorização da experiência uruguaia. No site Portal Vermelho, o professor e sociólogo Leujene Mirken defende a mesma posição, embora ressalte que a Frente Ampla uruguaia se tornou dominante no País, quando se unificou em torno de quatro movimentos da esquerda e extrema esquerda (Partido Comunista, Partido Socialista, Partido Operário Revolucionário e Partido da Vitória do Povo), deixando de lado os representantes do Centro e mesmo os dissidentes "blancos" e "colorados".

Seria interessante nesse momento, comparar um pouco a realidade de Brasil e Uruguai para ver até que ponto, a experiência uruguaia poderia servir de parâmetro para nós brasileiros.

O Uruguai é um país de cerca de 3 milhões e meios de habitantes, dos quais um terço vive em Montevidéu. A Frente Ampla ganhou em 2014 a Presidência do País pela terceira vez seguida, com Tabaré Vazques, que fez quase 1 milhão e meio de votos, o que representou 53,6% dos votos. Esse percentual é quase o mesmo que teve a Presidente Dilma, no Brasil, mas com um número absoluto de votos a seu favor superior a 50 milhões.

Tradicionalmente, a economia uruguaia sempre se apoiou na agropecuária, mas hoje 73% da sua força de trabalho se concentra em atividades comerciais e serviços, segmento onde se situam os eleitores mais informados e, portanto, teoricamente mais sensíveis ao discurso progressista da esquerda.

Segundo dados da CEPAL, enquanto com uma população de 200 milhões de habitantes no Brasil, 5,9% deles vivem no que é chamado de "pobreza extrema"(em 2005, antes do governos do PT, esse índice chegava aos inacreditáveis 36%), no Uruguai, com uma população de  3 milhões e meio de habitantes, esse índice é de 2,8%.

Agora, uma questão histórica: a Frente Ampla uruguaia disputou sua primeira eleição em 1971, quando o processo ditatorial se acelerava no Uruguai (consumado em 1973) e dirigiu toda a sua luta contra essa ditadura, buscando principalmente o confronto armado (os Tupamaros formaram o mais importante grupo guerrilheiro da América) e só chegaram ao poder 30 anos depois.

A ditadura uruguaia, chamada ironicamente de Cívica Militar, denominação que escancara o que também aconteceu no Brasil - a união da alta burguesia com os militares - começou com um civil, Juan Maria Bordaberry, entregando o poder aos generais e terminou com um deles (Gregório Álvarez), passando o bastão para um civil, Julio Sanguinetti, do Partido Colorado em 1985.

A partir daí, começam as diferenças com o Brasil. Enquanto aqui, o PT, com Lula, depois de três derrotas sucessivas, buscou uma aliança à direita para se eleger em 2002, a Frente Ampla do Uruguai, manteve e aprofundou sua base a esquerda, mesmo com as derrotas de Liber Serigne em 89 e de Tabaré Vazques, em 94 e 99, até chegar à Presidência em 2004.

A nova frente proposta por Tarso, obviamente mira a eleição de 2018, quando terão se passado 14 anos da primeira vitoriosa experiência uruguaia. Será que o mundo não mudou o suficiente para não pensarmos que ela já não tenha a força suficiente do passado.

O próprio Tarso tem seguidamente lembrado em seus artigos que uma nova forma de dominação capitalista surgiu, baseada cada vez mais na transferência de recursos dos países para um reino financeiro sem pátria, nem bandeira.

Não existe mais uma ditadura concreta a ser combatida. O que se apresenta hoje é uma nova forma de democracia, de aparência formalmente semelhante à velha democracia que todos nós almejamos, mas na realidade uma ditadura das elites financeiras mundiais, sustentada pela mídia internacional e pelas armas de um estado nacional - os Estados Unidos - que só existe para cumprir esse papel.

Não seria a hora, então de propor, ainda que apenas como tema alternativo à sempre lembrada por Tarso "radicalização da democracia", uma proposta realmente revolucionária, enquanto ainda é tempo, como pensa Meszaros, de que a nossa única alternativa à barbárie, é o socialismo nesse século 21.

Ou será, como disse mais de uma vez Slavoj Zizek (prometo que é a última vez que vou citá-lo) que os que defendem a democracia hoje (como os mencheviques do passado, citados por Tarso} têm medo da revolução? 

Zizek, sempre pronto para uma provocação, diz que a melhor opção à democracia liberal de hoje é a ditadura dos pobres e dá como exemplo, a revolução bolivariana de Chàvez, à qual, apesar de reconhecer seus erros, diz que é a que mais se aproxima do conceito clássico de democracia, a de ser um governo do povo e para o povo.

Outro provocador, o filósofo francês Alain Badiou, em sua obra A Hipótese Comunismo, diz que os piores inimigos de uma revolução social são os que se dizem democratas.

Certamente não é no que acredita Tarso, quando diz que "como as utopias andam em baixa, creio que esta seja uma "utopia realista" - naquele sentido do velho Bloch - que, se não nos tira agora do isolamento e da inércia, pelo menos muda nossa atitude perante elas".

Surpreendentemente (ou não seria nenhuma surpresa?), poucos políticos e intelectuais se interessaram em participar dessa discussão que Tarso iniciou.

Uma pena.

Marino Boeira

 


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