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Parte II: As velhas roupas novas do Imperador Obama...

09.10.2014
 
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2/10/2014, Vera Graziadei, http://wp.me/p4HeHF-iL [2/2]

Parte II: As velhas roupas novas do Imperador Obama e a Guerra da Energia dos EUA


[Continuação]
Há diferença entre uma revolução popular e um golpe orquestrado; há diferença entre permitir que o povo escolha os próprios dirigentes democraticamente, sejam pró-EUA ou pró-Rússia, e impor um governo - que foi o que os EUA fizeram em Kiev depois do golpe. Só se pode lamentar pelo infeliz povo ucraniano que realmente acreditava no protesto que fazia. Paul Craig Roberts resumiu o golpe e os protestos que se seguiram a ele: "O objetivo do golpe é implantar bases militares da OTAN na fronteira entre Ucrânia e Rússia, e impor um programa de 'austeridade' do FMI que serve como cobertura aos interesses financeiros ocidentais para que saqueiem o país. Os manifestantes sinceramente idealistas que tomaram as ruas sem serem pagos são inocentes úteis manobrados pelos que trabalham para destruir o país deles."

Os principais saqueadores que se beneficiam da tomada do poder na Ucrânia foram alguns políticos de alto escalão no governo dos EUA, seus amigos e familiares, que desavergonhadamente apoiaram os protestos organizados para garantir-lhes uma 'licença para saquear'. "Estamos a postos para ajudá-los" - disse o vice-presidente dos EUA Joe Biden aos que protestavam na rua. - "Imaginem onde estariam hoje, se pudessem dizer à Rússia 'Fiquem aí com o gás de vocês!'. O mundo seria muito diferente." Biden com certeza já imaginara onde ele e sua família estariam sem o gás russo: o filho de Biden, Hunter Biden, foi logo depois contratado como diretor da principal empresa ucraniana de energia, a Burisma Holding.

Biden não foi o único norte-americano 'bem-relacionado' a ser contratado pela empresa de gás. Devon Archer, milionário investidor e doador de campanha do Partido Democrata, com laços antigos com o secretário de Estado John Kerry, logo depois de também passar a integrar a diretoria da Burisma Holdings, disse que a experiência o fazia recordar "a Exxon, logo que foi criada." O portfólio de licenças para exploração da Burisma é bem diversificado em todas as três principais bacias de petróleo e gás da Ucrânia - Dnieper-Donets, dos Cárpatos e Azov-Kuban, e seus campos estão totalmente conectados aos principais gasodutos no país.

O referendo na Crimeia e a reintegração à Federação Russa colheram todos de surpresa, e foi duro golpe para empresas como a Chevron, Shell, ExxonMobil, Repsol e Petrochina, que já haviam investido dinheiro no desenvolvimento dos recursos submarinos da Crimeia - as reservas de Gás Natural Liquefeito (GNL).

Se se examina alguns dos alvos atacados por sanções dos EUA contra a Rússia e empresas ligadas à Rússia, vê-se que dois foram diretamente selecionados para atrasar, ou parar de uma vez por todas, a construção do gasoduto Ramo Sul: "A primeira empresa relacionada ao gasoduto Ramo Sul que os EUA atacaram com sanções foi a Stroytransgaz, que está construindo o trecho búlgaro. A empresa pertence ao bilionário Gennady Timchenko, aliado de Putin, que já está na lista de sanções. A empresa Stroytransgaz teve de suspender a construção, ou arriscava-se a provocar sanções também contra outras empresas. A segunda entidade atacada com sanções foi uma empresa da Crimeia chamada Chernomorneftgaz.

Depois de pedir a reincorporação da Crimeia à Federação Russa, que foi aceita, o Parlamento da Crimeia aprovou a encampação daquela empresa, que pertencia ao governo ucraniano. E adivinhem o que aquela empresa possuía? Direitos sobre a zona marítima econômica exclusiva no Mar Negro. É importante, porque a Rússia traçou o gasoduto por um caminho mais longo, que atravessa o Mar Negro, e deixa de fora a Ucrânia. Evita águas da Crimeia e, em vez disso atravessa águas turcas."

(...) O que aconteceu na Crimeia foi quase réplica do que aconteceu em Kiev: o povo de Kiev, na praça Maidan desejava ficar mais próximo da União Europeia e dos EUA; o povo da Crimeia há muito tempo tentava reincorporar-se à Federação Russa (...).

A grande diferença, porém, é que na Crimeia só morreu um soldado, e num acidente, e em Kiev atiradores postados nos prédios ao redor da praça mataram quase 100 pessoas, depois do quê um grupo chegou ao poder pela força. É muito semelhante a uma técnica bem conhecida, que os EUA usaram várias vezes, sempre que urdiram e encenaram golpes de em outros países, descrita em poucas palavras no livro A Doutrina do Choque de Naomi Klein: "exponha as pessoas a eventos chocantes, tome o poder e rapidamente execute as mudanças econômicas e políticas planejadas, antes que os cidadãos despertem do pesadelo e voltem a ter pleno controle de suas faculdades mentais".

Outra grande diferença é que, enquanto a maioria dos crimeanos estão felizes por estarem reincorporados à Rússia, os protestos pós-golpe, que logo eclodiram nas regiões do leste da Ucrânia, mostraram que contingentes significativos da população do Donbass não estava feliz com o rompimento de seus laços com a Rússia (a maioria ali são russos étnicos).

Quando forças de resistência e autodefesa organizaram-se e implantaram sua base em Slavyansk, bem no coração do campo Uzovka de gás de xisto, onde as empresas Shell e Burisma preparavam-se para iniciar as operações de fracking, o governo dos EUA logo mostrou até que ponto estava preparado para agredir, na luta pelos interesses comerciais das empresas de petróleo e gás sócias informais do Estado.

Na 2ª-feira, 14/4, a agência Reuters publicou a confirmação, pela Casa Branca, de que o diretor da CIA John Brennan estivera em Kiev no fim de semana anterior. Mais um dia, e Kiev anunciou o início de uma chamada "operação anti-terroristas" no Donbass. Um dos países que mais furiosamente apoiaram a operação foi a Polônia, o que, novamente, não foi surpresa para ninguém, dado que outro dos diretores da empresa Burisma, colega de diretoria de Biden e Archer, era então e continua a ser Alexander Kwasnevski, ex-presidente da Polônia.

A Lei n. 2.277 do Senado, aprovada dia 1º/5/2014, "para impedir novas agressões russas contra a Ucrânia", ordena que a Agência para Desenvolvimento Internacional dos EUA comece a dar garantias ao fracking de petróleo e gás na Ucrânia, ao mesmo tempo em que as tropas de Kiev marchavam para o Donbass para "basicamente proteger o equipamento de fracking".

Obama é homem rico em talentos teatrais. Chega a impressionar que, no discurso à Assembleia da ONU, tenha conseguido ir até o fim, sem cair da tribuna ao enunciar tantas e tais mentiras e hipocrisias, dentre as quais, por exemplo: "Essa é a comunidade internacional que os EUA buscam: comunidade na qual as nações não saqueiem terra ou recursos de outras nações, mas na qual demos andamento ao objetivo para o qual essa instituição foi fundada e pelos quais todos nos responsabilizamos. Um mundo no qual as regras estabelecidas a partir dos horrores da guerra possam ajudar-nos a resolver pacificamente os conflitos e impedir o tipo de guerra que nossos antepassados lutaram. Um mundo no qual seres humanos possam viver com dignidade e ter supridas suas necessidades básicas, vivam onde viverem, em New York ou Nairobi, em Peshawar ou Damasco".

A guerra civil que eclodiu na Ucrânia e que, como já está demonstrado, é parte da guerra global dos EUA por energia, já fez 4 mil mortos civis, deixou desabrigados mais de um milhão de ucranianos e gerou gravíssima crise humanitária. Além disso tudo, tão logo comecem de fato as operações de fracking na Ucrânia, os ucranianos devem esperar também "terremotos, inundações, contaminação de águas subterrâneas e morte de animais marinhos, pássaros e peixes, além de fluxos de água fervente envenenada com metano, que contaminará o ar e a água potável" (...) [em russo, em http://racurs.ua/293-dobycha-slancevogo-gaza%20-posledstviya-dlya-ryadovogo-ukrainca ]. (...)

O que Obama disse na ONU - "Os EUA e nossos aliados apoiarão o povo da Ucrânia para que desenvolvam a democracia e a economia" - é mentira.

A verdade pode ser facilmente encontrada nas publicações dirigidas pela e para a indústria do gás, nas quais ninguém nem tenta ocultar os interesses do business nem perde tempo com fingir que muito se preocupa(ria) com o povo ucraniano ou outras falsas narrativas que soam morais e moralizantes:


"Empresas norte-americanas podem investir diretamente na Ucrânia, levando com elas sua tecnologia. Empresas ucranianas podem contratar perfuradores norte-americanos com experiência, podem licenciar perfuradoras norte-americanas e empresas de tecnologia de sondagem sísmica por imagem, e podem importar equipamento norte-americano sofisticado de perfuração (...) O governo dos EUA pode estimular esses desenvolvimentos com programas patrocinados pelo estado, como o Programa para Engajamento Técnico Não convencional para Gás, do Departamento de Estado (...) [orig. Unconventional Gas Technical Engagement Program] e pode acelerar esse investimento com financiamentos pelo US Export-Import Bank.

Tão logo o novo Parlamento seja eleito em outubro, o governo da Ucrânia deve fazer todo o possível para promover o investimento privado na produção; isso deve incluir redução de taxas e impostos e garantias de novos incentivos para investimentos em energia. Um incentivo fiscal, em especial, que devem oferecer, será uma isenção por valor agregado para a importação de equipamento sofisticado para perfuração, modelado conforme outro incentivo por valor agregado já criado recentemente para a importação de equipamento militar.

É importante que a Ucrânia não só tenha leis fortes e um bom ambiente regulatório, mas também que tenha serviço civil aberto e transparente, para impedir que a corrupção, que foi rampante durante o antigo regime, estabeleça-se também no novo governo. Para impedir isso, os governos dos EUA e da Europa devem promover máxima transparência dentro do governo, estimulando que funcionários públicos dos EUA se engajem com membros do funcionalismo público civil do Ministério de Energia e Indústria do Carvão."


Aí está o pessoal que, sim, vai beneficiar-se do apoio que os EUA deem à "democracia e à economia da Ucrânia": empresas norte-americanas em geral, especialmente de perfuração e especialistas em sondagem sísmica por imagens, fabricantes de máquinas de perfuração, bancos norte-americanos e funcionários do governo dos EUA. O povo da Ucrânia não terá qualquer benefício, porque a tal "revolução do gás de xisto" é pura lorota.

Até a revista Forbes, que em março escrevera que "a Ucrânia precisa é de uma revolução do gás de xisto à maneira norte-americana", em setembro já reconhecia, em artigo, que "a bolha do gás de xisto não passava disso, de bolha, condenada a ir pelos ares. A única razão pela qual muita gente ainda acredita que o gás de xisto aumente as exportações, gere empregos e aumente o PIB, além de reduzir a emissão de gases de efeito estufa, é porque toda a informação que circula sobre suprimentos de gás natural e como pode ser explorado vem de gente que tem grandes interesses investido no sonhos de uma 'Idade do Xisto'." (...)

Muito ironicamente, o gás natural russo seria muito mais seguro e muito mais barato para a Europa. Mas a política exterior dos EUA já chegou lá e parece que o povo europeu absolutamente não será ouvido nem terá escolha. Quem diz o que será feito da Europa é gente do quilate de Condoleeza Rice: "Vocês querem depender mais e mais da plataforma de energia dos EUA (...). Vocês querem ter gasodutos que não passem por Ucrânia e Rússia. Durante anos tentamos conseguir que os europeus se interessarem por diferentes traçados para gasodutos e oleodutos. Chegou a hora de se fazer isso." (...)

Para todos que viram que o rei está nu, as últimas palavras de Obama soaram como uma horrível ameaça:


"E nessa encruzilhada, posso prometer-lhes que os Estados Unidos da América não se deixarão distrair ou desviar do que tem de ser feito. (...) Estamos preparados para fazer o que for necessário para transmitir esse legado às futuras gerações. Unam-se a nós nessa missão comum."

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