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Uma alegoria do capitalismo

08.09.2016
 
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Uma alegoria do capitalismo

Somente através da arte é que é possível representar todo o caráter amoral e aético do sistema capitalista.

Na vida real, ele se esconde atrás de representações positivas sobre o seu papel como impulsionador do desenvolvimento e se mistura com as ações dos seus agentes - os capitalistas - que como todos os seres humanos, têm qualidades positivas e negativas.

Sua essência é o lucro a qualquer custo e nessa busca, sua única barreira é aquela erguida por suas vítimas em potencial. Em tempos de relativa normalidade, ele contorna essas barreiras usando suas poderosa armas, que vão desde a venda publicitária de suas pretensas qualidades, buscando a conquista ideológica de suas vítimas, até a mais dura repressão, quando as resistências se tornam muito fortes.

Nos momentos de crise, ele assume a sua face mais cruel e predadora. O exemplo clássico dessa radicalização total foi dado pelo capitalismo alemão, na época do nazismo, quando transformou seres humanos em itens de produção, sugados até a sua exaustão total.

As mais notórias empresas colaboradoras dos nazistas foram a Bayer, a IG Farben, a Wolskwagen, a Siemens e Hugo Boss (fabricava os uniformes nazistas) , além das filiais americanas na Alemanha, da Kodak, Coca-Cola, que durante a guerra produziu o refrigerante Fanta para os soldados alemães, a IBM e a Ford.

Todas elas, direta ou indiretamente, se utilizaram do trabalho escravo de prisioneiros dos campos de concentração na Alemanha, Polônia e Ucrânia.  Em determinado momento, quatro de cada cinco empregados da Voks, eram prisioneiros de guerra.

Mesmo assim, poucos associam o nacional-socialismo de Hitler à forma mais extremada do capitalismo, preferindo ver apenas seus aspectos mais distorcidos, como a perseguição racial aos judeus, quando sua essência estava em levar às últimas consequências o lema do lucro a qualquer preço.

Esse objetivo era buscado se utilizando duas regras de ouro do capitalismo: derrotar a concorrência e produzir ao menor custo possível.

O primeiro objetivo era obtido através das guerras de conquista e o segundo, usando a mão de obra totalmente escrava.

Hoje, até por força de resistências históricas dos trabalhadores oprimidos, o sistema capitalista assume uma forma mais civilizada, mas em determinados momentos, retorna às suas origens selvagens.

Aqui entra a função da arte.

Uma leitura mais atenta da atual série de televisão Narcos, mostrada no mundo inteiro pelo Netflix, mostra o capitalismo com a sua cara mais destruidora.

Ao lado dos produtos estritamente necessários à sobrevivência dos seres humanos, gerados nas fábricas do sistema em todo o mundo, existem outros, que a civilização tornou importantes para à vida moderna, da arte a itens de conforto pessoal, mas também uma enorme quantidade de objetos que só existem para manter a grande máquina capitalista funcionando.

Além dessas categorias, existem também produtos totalmente nocivos aos seres humanos, reconhecidos pela maioria das pessoas, mas que continuam a ser produzidos legalmente, como no caso dos cigarros.

Numa posição extrema, existe a grande indústria ilegal da produção e distribuição de drogas, que pelo seu caráter profundamente destruidor, é tratada como uma ovelha negra do sistema capitalista, mas que com seus poderosos tentáculos se infiltra em muitas outras atividades legais.

A percepção comum das pessoas é de que se trata de uma atividade totalmente marginal com regras próprias e geridas por criminosos totalmente desumanos.

Embora, talvez não fosse intenção dos seus criadores, a série Narcos, sobre o mega traficante colombiano Pablo Escobar, se transforma numa alegoria sobre como funciona o sistema capitalista.

Os grupos familiares de traficantes são verdadeiras empresas que buscam maximizar seus lucros e como agem à margem das leis, decidem seus litígios não nos tribunais, mas através de ações armadas. Curiosamente, vendendo um produto fruto da modernidade dos costumes, se apoiam em práticas do capitalismo mais primitivo.

Suas lideranças, começando pelo próprio Pablo Escobar respeitam costumes religiosos, são amorosos pais de família e se comovem com as dificuldades materiais de seus empregados. O assistencialismo que Pablo Escobar usa para buscar apoio das comunidades onde atua, é o mesmo que o capitalista moderno usa através de suas fundações e obras de benemerência.

Até mesmo o patrocínio de times de futebol, hoje usado a não mais poder pelas grandes empresas, era praticado por Escobar em relação ao Atlético Nacional de Medelin.

Hoje, diretamente ou através de prepostos, os empresários buscam assentos nos parlamentos para influenciar em suas decisões e não poucas vezes reivindicam os maiores cargos de suas nações (Donald Trump quer ser presidente dos Estados Unidos), tal como   Pablo Escobar, que foi deputado no parlamento colombiano e que sonhava ser presidente.

Narcos é um retrato do sistema capitalista despido de suas vestes mais coloridas e atraentes, exatamente como ele é na sua essência.

 Marino Boeira é jornalista, formado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 


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