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Crise na Grécia ou crise nos estados da União Européia?

07.06.2010
 
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Crise na Grécia ou crise nos estados da União Européia?

No dia 6 de dezembro de 2008 as agências de informação anunciavam que uma violenta rebelião popular havia sacudido as principais cidades da Grécia para protestar contra o assassinato do estudante de 15 anos Aléxis Andréas Grigoropulos, abatido a tiros pela polícia anti-motim.

Durante três dias as televisões do mundo inteiro visualizaram as cenas de violência da guerrilha urbana que havia paralisado a capital Atenas, Salonicco, Patrasso, Kavale e também as ilhas de Creta, Rodi e Corfu, quando foi evidente que o assassinato do jovem Aléxis no bairro de Exarquia – fortaleza do movimento estudantil e dos grupos anarquistas - foi provocado "ad hoc" pela polícia para criar um clima de terror e esvaziar a greve geral que as centrais sindicais Adedye (funcionalismo público) e GSEE (setor privado) e os partidos de esquerda, KKE (Comunista), Pasok (social democrata), Synaspismos (Movimentos Sociais) e Verdes, haviam proclamado para dia 10, a fim de protestar contra a crise econômica, as privatizações e o aumento do desemprego.

Este motim fez cair a máscara do governo conservador de Kostas Karamalis (Nova Democracia), mostrando os elementos de grave crise econômica e financeira existente que, na realidade, era a ponta de um iceberg submerso pronto a emergir na "área do Euro".

Entrevistado por telefone, Yannis Bournous, responsável pelas políticas européias do Synaspismos (o partido dos movimentos sociais com 13 deputados no Parlamento), declarava: "O assassinato do jovem Aléxis, em 2008, foi apenas o estopim da revolta dos gregos contra a crise econômica. Por sua parte, a União Européia sabia perfeitamente que o governo Karamalis estava levando a Grécia para a falência.

Depois, em 2009, quando o Pasok de Georgios Papandreu ganhou as eleições e nós do Synaspismos e os comunistas do KKE aumentamos a presença no Parlamento, a União Européia ignorou todos os alertas vindos da Grécia e, sobretudo, os estudos apresentados no Parlamento Europeu pelos representantes da esquerda européia.

Estudos e análises advertindo que a crise econômica e financeira na União Européia não ficaria limitada somente a um país e tampouco seria provocada por um acidente nas bolsas de valores. Outra advertência indicava que a crise era, também, o resultado de dois fatores: a) as políticas especulativas praticadas em certos países da União por parte de bancos e instituições financeiras dos países ricos da mesma União, com a condescendência dos respectivos governos e do próprio Banco Central Europeu; b) o mau funcionamento da estrutura financeira da União e seu processo centralizador gerenciado pela Alemanha".

Grécia: déficit de 14% do PIB

De fato, o jornal holandês NRC Handelsblad – no início da crise grega – publicou o memorando que o então comissário europeu, Joaquim Almunia, no dia 2 de julho de 2009, levou à direção da Ecofin, formada pelos ministros das finanças dos países da "área do Euro", no qual eram confirmados os riscos e os alertas apresentados antes da reunião do Ecofin em Praga, em junho de 2009, quando o ministro das finanças grego, Papathanassiou (governo conservador Karamallis), admitia que "o orçamento grego poderia ter um buraco vermelho de até 6% do PIB". Diante disso o então comissário europeu, Joaquim Almunia, concluía seu memorando com a seguinte denúncia: "... caso as tendências em curso continuem, na realidade o déficit orçamentário do governo grego poderá chegar a até 10% do PIB".

Por absurdo, os ministros da União Européia e o próprio comissário Almunia arquivaram a crise grega. E quando o novo primeiro-ministro grego, o social-democrata Georgios Papandreu, logo após as eleições de outubro, informou que o déficit orçamentário seria de 12,7% para depois especificar que o mesmo já havia atingido 14% do PIB, em Bruxelas, ninguém sabia o que fazer.

Oficialmente, a crise grega explodia nos mercados financeiros no dia 8 de dezembro de 2009, quando a agência de riscos "Fitch´s" rejeitava o grau de confiabilidade do governo e de cinco bancos da Grécia em pagar suas dívidas. Mesmo assim os ministros da União Européia não se manifestavam, enquanto a imprensa alemã enaltecia a opção drástica do presidente do Bundesbank (Banco Central Alemão), Alex Weber, segundo o qual "uma intervenção européia coordenada em favor da Grécia era inconstitucional e a ajuda do FMI não daria resultados sem a aplicação de regras rígidas e duradouras na economia da Grécia".

Faltou somente dizer que a Grécia devia sair da "área do Euro" para promover a "operação default", a partir da qual optaria por uma maxi-desvalorização da dracma e transformaria o país em um estande de produtos para a exportação, tal como fizeram a Polônia, a Itália e a Espanha em 1992, antes da entrada em vigor do Euro.

Porque a União Européia não interveio?

É importante lembrar que para a Grécia poder ingressar, em 2001, no sistema de moeda européia teve que falsear seu déficit orçamentário, que de 4,1% do PIB foi, milagrosamente, corrigido para 2%, tal como o primeiro-ministro social-democrata, Georgios Papandreu, acertou com as autoridades da União. Uma mentira que se perpetuava em 2004 com a vitória eleitoral do conservador Karamallis, tanto que a porta-voz da União Européia, Amélia Torres, em Bruxelas, em 20 de março de 2005, oficializava a mentira ao dizer: "as autoridades gregas cobriram amplamente os buracos orçamentários e solucionaram as falhas do seu sistema estatístico. Por isso, hoje, a situação da Grécia é notavelmente melhor".

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