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Muito, muito interessante: aconteceu na Novorússia

06.11.2014
 
Muito, muito interessante: aconteceu na Novorússia. 21109.jpeg

"Dado que todos os jornalistas estavam mais ou menos abertamente se acusando uns os outros de estarem "filtrando a verdade", todas as partes realmente envolvidas no conflito concordaram com gravar tudo, nada editar e publicar as gravações, nuas e cruas, em YouTube."


Coisa fantasticamente interessante aconteceu na Novorrússia: dois altos comandantes novorrussos, Igor Bezler e Alexei Mozgovoi tiveram um encontro com os ucranianos do outro lado.
29/10/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
http://vineyardsaker.blogspot.com.br/2014/10/something-very-very-interesting-has.html
Não tenho como confirmar as datas dos eventos (o que vi só exibe as datas das postagens em YouTube), mas aparentemente começaram quando Igor Bezler aceitou ser entrevistado por três equipes de televisão ao mesmo tempo: uma russa, uma novorrussa e uma ucraniana. Notícia importante aí, é, é claro, que uma jornalista ucraniana tenha tido acesso à cidade de Gorlovka, atualmente cercada por forças ucranianas, e tenha conseguido falar com a população local, inclusive combatentes, antes de entrevistar pessoalmente o próprio Bezler.

Dado que todos os jornalistas estavam mais ou menos abertamente se acusando uns os outros de estarem "filtrando a verdade", todas as partes concordaram com gravar tudo, nada editar e publicar as gravações em YouTube.

Ao assistir, tenham em mente que, no Banderastão, não entram jornalistas russos, que as redes russas de televisão estão proibidas de operar e que o povo, na Ucrânia controlada pela junta só ouve, incansavelmente repetida, a 'informação' de que o outro lado são terroristas e soldados russos. A imprensa-empresa ucraniana é a mais repugnante, vendida, subserviente e propagandística que vocês possam imaginar [Oh, Saker, amigo! Você não conhece a 'grande imprensa-empresa' no Brasil! A Ucrânia é aqui! (NTs)]. 

E então, de repente, pelo menos uma equipe da televisão ucraniana concorda em exibir a cara e a fala de um dos mais temidos comandantes novorrussos e lhe entrega o microfone para que diga o que queira.

Mas o evento seguinte foi ainda mais interessante. Alexei Mozgovoi concordou em fazer uma videoconferência, não só com jornalistas ucranianos, mas também com reais comandantes militares em campo, do exército ucraniano. Ver Mozgovoi e os ucranianos falando cara a cara foi absolutamente fantástico. E, nisso, tenho de pedir desculpas, porque não posso pedir que nossos tradutores traduzam e legendem a coisa toda. Primeiro, porque não é uma, mas são duas longas videoconferências e três longos vídeos. Confiram vocês mesmos:

Entrevista com Bezler: Publicada dia 21/10/2014
http://youtu.be/uVN2wkuL88w  (duração: 2 horas e 17 minutos)

Primeira videoconferência de Mozgovoi
: Publicada dia 221/10/2014
http://youtu.be/WYy5Y9MQozA (duração: 1 hora e 20 minutos)

Segunda videoconferência de Mozgovoi: Publicada dia 28/10/2014
http://youtu.be/tC7YGe0SmqQ  (duração:1 hora e 51 minutos)

Espero sinceramente que alguém, em algum lugar do mundo, traduza. Mas é trabalho demais, que não posso pedir a nenhum dos voluntários que trabalham conosco.

Além do mais, são vídeos muito complexos. Há discussões, em alguns momentos todos gritam e interrompem-se uns os outros, há conversa cruzada e acontecem, até, duas canções. É coisa complexa, carregada de emoções, muito difícil de converter em texto traduzido. E é trabalho que exige muito tempo.

Então, proponho-me, aqui, a partilhar com vocês os elementos que mais me chamaram a atenção.

Mas, antes, quero esclarecer um ponto importante: a ideia original aparentemente foi reunir combatentes para conversar com combatentes; mas do lado ucraniano só aparecem alguns poucos comandantes e alguns poucos ativistas. O lado novorrusso está representado por soldados de verdade. Aparentemente, os ucranianos não consideraram prudente expor pela televisão os seus homens de campo. 

Para começar, foi muito espantoso constatar que os dois lados concordam sobre imensa quantidade de pontos. Os dois lados concordam que essa guerra é inútil e só beneficia os inimigos da Ucrânia. Os dois lados manifestaram desprezo, desgosto, até ira contra todos os políticos no poder e contra os oligarcas que, hoje, governam o Banderastão. Os dois lados concordam que Yanukovich nunca passou de puro lixo, e que os protestos da praça Maidan foram legítimos, mas os protestos originais e legítimos foram sequestrados por inimigos da Ucrânia. Os dois lados também concordam que essa guerra teria de ter fim. Mas, por favor, não esqueçam que os nazistas ucranianos não foram convidados. O que ali se via eram, principalmente, militares regulares ucranianos e novorrussos, e ativistas ucranianos, conversando com um comandante novorrusso, Mozgovoi. E, sim, também há real desacordo em alguns pontos.

A posição dos ucranianos era (numa paráfrase, a citação não é perfeita): "Maidan foi legítimo e correto, mas vocês - os  novorrussos - pegaram em armas e, assim, criaram uma crise que a junta ilegítima usou, e a qual nos impediu de defender nossos objetivos políticos. Não queremos que nosso país se divida ainda mais e é isso, exatamente, o que vocês estão fazendo. Sabemos também que os "russos armados vestidos de verde e muito bem-educados" estão combatendo ao lado de vocês e que muitos de vocês não representam verdadeiros interesses da Ucrânia, mas interesses da Rússia. Parem de combater e unam-se ao processo político para varrer de nosso país todos esses loucos".

A isso, Mozgovoi respondeu (numa paráfrase, a citação não é perfeita): "Nós não escolhemos combater, vocês chegaram aqui em nossa terra e estão matando nosso povo. Se vocês realmente querem varrer de Kiev aquela escória nazista, então não se interponham entre Kiev e nós, deixem-nos passar - e nós facilmente resolveremos o problema de Kiev. Vocês recebem ordens de comandantes nazistas e dos oligarcas e nada estão fazendo para impedi-los de continuar a matar nosso povo. Se nós depuséssemos as armas, seríamos todos massacrados.

Interessante: quando os ucranianos acusaram os novorrussos de estarem fazendo o jogo da Rússia, Mozgovoi respondeu que os ucranianos eram peões nas mãos da CIA; supreendentemente, os ucranianos praticamente concordaram que, sim, é a CIA quem dirige o show. Quanto a Mozgovoi, não negou que a Rússia estava ajudando.

Os dois lados manifestaram frustração por não poder unir forças e, juntos, expulsar do país os oligarcas e os nazistas.

Durante a entrevista de Bezler, surpreendentemente, alguém da equipe da televisão ucraniana perguntou a Bezler se ele fala ucraniano; ele respondeu que sim. Sem acreditar, o ucraniano perguntou se ele saberia recitar algum poema do famoso poeta Taras Shevchenko. Então, para surpresa geral, Bezler recitou o poema "aos poloneses"[1], no qual Sevchenko descreve o quão felizes estavam os cossacos depois de derrotar os poloneses[2]:


"As estrelas já brilhavam.
Como nuvens, os cossacos,
aos polacos então cercavam.
Quando a lua prateava
os canhões bramiram --
e acordaram do seu sono
os fidalgos e suas senhoras...
Correr aonde iam nestas horas!
Acordaram do seu sono;
mas, não reagiram.

O sol novamente aparecia e,
no horizonte, dos fidalgos e
suas senhoras, sombras refletia.

Os cossacos reunidos
a Deus graças deram.

Grasnaram seu canto:
as aves partiram;
e, do inimigo os olhos,
os cossacos não viram."


Muito interessante constatar que Bezler fala perfeito ucraniano, e que soube colher rapidamente a chance que lhe apareceu para fazer lembrar aos seus adversários ucranianos que, no passado, os dois lados foram usados e manipulados por ocidentais que odiavam a Rússia e os ortodoxos - e fez tudo isso usando versos de um poeta que é herói nacional de todos que estavam ali reunidos!

Outro momento também surreal aconteceu quando um soldado novorrusso pegou um violão e cantou uma canção sobre a guerra. Os ucranianos deram sinais claros de que ficaram muito emocionados; com certeza, a canção os emocionou, porque várias vezes repete que ali estavam "russos lutando contra russos". Essa questão apareceu várias vezes, na conversação. Do ponto de vista dos novorrussos, os ucranianos também são parte do "reino cultural russo" (o que evita de usar as palavras "estado" e "nacionalidade"), embora com sotaque diferente e história diferente. Os ucranianos insistiram que são outra nacionalidade, embora mantenham fortes laços com o "reino cultural russo".

Nas duas entrevistas, de Bezler e Mozgovoi, surgiu a questão dos prisioneiros. Os dois lados reclamaram que seus homens teriam sido maltratados e torturados na prisão. Mais um detalhe interessante: participaram da entrevista de Bezler dois oficiais ucranianos, um ativista de direitos humanos e outro, que representava o Ministério da Defesa da Ucrânia, para a questão dos prisioneiros de guerra. Esses quatro imediatamente admitiram que Bezler tratara os prisioneiros ucranianos, não como prisioneiros de guerra, mas como hóspedes: podiam andar pelas instalações do quartel, comiam e dormiam com os demais soldados de Bezler, e foram tratados com cordialidade e pelas regras da boa hospitalidade. Em dada ocasião, comeram até caviar vermelho.

Mas o mesmo Bezler admitiu abertamente que "quando cruzamos com nazistas dos esquadrões da morte, não carregamos prisioneiros", o que confirma o que já escrevi várias vezes: que a cordialidade e a hospitalidade russas para com prisioneiros de guerra ucranianos só se aplicam a soldados das unidades militares regulares; membros de esquadrões da morte capturados são imediatamente executados.

Houve centenas de rápidos momentos e trocas de argumentos e gestos, que gostaria muito de partilhar com vocês, mas isso exigiria muito mais espaço e tempo. Quero deixar dito porém que fiquei muito impressionado de ver inimigos conversando em termos muito  cordiais. Também me surpreendeu a rapidez com que os ucranianos concordaram com a ideia de que a Ucrânia tem de se livrar o quanto antes dos nazistas e dos oligarcas. Em vários momentos, gente dos dois lados disse "vamos fazer isso juntos!" Outros, manifestavam ainda alguma dúvida. Sinceramente, fiquei muitíssimo impressionado com a coragem e a decência de muitos dos ucranianos que falaram naquelas entrevistas, os quais, embora sempre defendendo a linha da integridade territorial da Ucrânia, admitiram bem claramente que odeiam os nazistas e seus oligarcas. Peço a deus que proteja aqueles homens honestos e corajosos.

Os dois, Bezler e Mozgovoi pareciam estar muito, muito bem. Mozgovoi surpreendeu-me, ao dizer claramente que seu objetivo é mudança de regime em Kiev, não apenas a separação da Novorrússia que, para ele, claramente, é só solução temporária, como medida de autodefesa. Bem evidentemente, os dois, Bezler e Mozgovoi são, em primeiro lugar e sobretudo, antinazistas,  e ambos veem que não existe qualquer "solução novorrussa". Mozgovoi disse explicitamente que entende que os dois lados podem conviver perfeitamente, se os ucranianos se livrarem de seus nazistas e oligarcas.

Por mais que eu sempre tenha dito que a única solução estável possível para a crise é uma desnazificação da Ucrânia, com a conversão do atual Banderastão em uma Ucrânia "mentalmente sã", não sou ingênuo e também vejo que o processo pode exigir uma década ou mais. Mas ver que Mozgovoi e seus contrapartes ucranianos concordam quanto à necessidade de desnazificar e desoligarquizar (inventei uma palavra?!), mostra que ainda há esperança, porque o resumo de tudo é: há  muito mais em comum entre os dois lados, do que coisas que os separem!

Mais uma vez, repito, ali estavam soldados ucranianos regulares, não os alucinados membros de esquadrões-da-morte nazistas. Sei disso. E os dois lados não discordam quanto às questões essenciais. Também vejo isso. Mas também vejo que há base, um mínimo em comum, para começar a negociar. Nada obriga a prosseguir como se se tratasse de uma guerra de extermínio.

A Ucrânia que conhecemos está morta. Também a Crimeia e a Novorrússia de antes já não existem para sempre, e há uma Ucrânia destroçada que chamo de "Banderastão", ocupada pela CIA-EUA, nazistas ucranianos e oligarcas. Minha esperança é que assim como a guerra civil ucraniana foi convertida em guerra que visa a garantir a autodeterminação e a libertação da Novorrússia, assim também, talvez, a guerra pela autodeterminação e a libertação da Novorrússia se converta em guerra pela libertação do Banderastão, para livrá-lo dos nazistas/EUA/oligarcas que ocupam a região. 

Se acontecer assim e se uma nova Ucrânia vier a emergir, nesse caso não tenho dúvidas de que o povo da Ucrânia concordará com que cada região tenha direito de se autodeterminar, a partir do direito cultural de manter-se autônomos. Só então se saberá realmente que regiões querem ficar e que regiões querem separar-se para sempre.

Até lá, continuo muito positivamente impressionado pelos comandantes de campo novorrussos. Bezler e Mozgovoi, é claro, mas também Givi, Motorola, Zakharchenko, Kononov e os demais, são figuras fortes, capazes de combater e de argumentar. Strelkov, infelizmente, está mais numa terra-de-ninguém, em termos políticos, e muito me preocupa a aproximação entre ele e o blogueiro el-Murid, que é claramente ponte de ligação para os "patriotas-oba-oba" e os "difamadores de Putin", usados, todos esses, pelo Império, para desacreditar Putin. Mesmo assim, a disputa política continua entre os líderes novorrussos, e ainda não há comando claro. Esperemos que as próximas eleições ajudem a resolver essa questão.

[assina] The Saker

 


[1] O poema parece ser A "Noite de Taras", poema homenagem, ao heroico episódio de luta do povo ucraniano contra a shlyakhta (nobreza) polonesa. A batalha se deu junto ao rio Trubaylo
em 1630 (localidade de Pereyaslav). O exército polonês, sob o comando de Stanislav Konetspolski, foi destroçado pelos cossacos comandados por Taras Fedorovych (Taras Tryasylo). Daí o nome do poema: "A noite de Taras" [NTs, sem nenhuma confirmação. Todas as correções e comentários são bem-vindos].

[2] Há tradução ao português de versos que parecem ser desse poema, em http://politicos.br101.org/poemas-ucranianos.html. O excerto acima foi copiado-colado de lá, e fica aqui só como 'guia', porque não há como confirmar, sequer, se é o mesmo trecho declamado pelo comandante novorrusso e traduzido pelo Saker [NTs]. 

 


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