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O preço de um equívoco

04.05.2009
 
O preço de um equívoco

Milton Lourenço (*)

Se o governo nunca admitiu explicitamente o equívoco da política comercial desenvolvida nos últimos anos, que não só ignorou tratativas para a formalização de acordos de livre comércio com grandes parceiros como ainda trabalhou decisivamente para o malogro das negociações para a formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), agora acabou por admiti-lo implicitamente, ao reconhecer que o Chile pode funcionar como plataforma para as exportações da indústria brasileira.

E por que? Ora, porque o Chile, em razão dos acordos internacionais que celebrou nos últimos anos, tem acesso privilegiado a mercados gigantescos como China, EUA, União Europeia e Índia e imposto zero de importação. Isso quer dizer que em itens da indústria têxtil, por exemplo, o ganho pode chegar a 35% do preço final.

Se tivesse tido a visão comercial que os estrategistas da política comercial chilena tiveram, com certeza, o Brasil não precisaria do país vizinho pelo menos nessa questão porque poderia negociar diretamente com aqueles países em condições mais favoráveis.

Isso não significa nenhuma censura à possível parceria Brasil-Chile. Pelo contrário. Diante das circunstâncias, não há dúvida de que é louvável a iniciativa, já que as perspectivas da utilização do país andino como plataforma das exportações verde-amarelas são bem promissoras.

Afinal, o Chile tem estabelecidos bilateralmente tratados de livre comércio com 48 nações. Em outras palavras: por meio desses acordos, os produtos chilenos têm acesso preferencial aos maiores importadores do mundo, o que, infelizmente, não ocorre com os produtos brasileiros exatamente pela falta de acordos desse tipo.

A saída imaginada é a instalação de unidades de indústrias brasileiras em território chileno ou a formação de joint-ventures, ou seja, parcerias com empresas chilenas que devem entrar com insumos e mão-de-obra. Até porque essa é uma exigência básica para que os produtos tenham isenção total ou usufruam de menores taxas de direitos de importação.

É um negócio atraente para ambos os lados. Para o Brasil, a vantagem é que o produto nacional, ao ganhar valor agregado pelo Chile, deixará de pagar pelo menos 15% para chegar ao consumidor estrangeiro. E poderá alcançar um mercado mundial estimado em três bilhões de consumidores. Para o Chile, é uma excelente oportunidade para deixar de ser um país cuja economia é baseada, praticamente, no cobre. Ao diversificar sua pauta de exportações, o Chile espera não só ampliar o número de empregos e fortalecer o seu mercado interno como conter a tendência de queda que o seu Produto Interno Bruto (PIB) vem registrando nos últimos meses.

Além disso, aquele país não dispõe de uma indústria diversificada que possa usufruir integralmente as vantagens oferecidas pelos tratados de livre comércio que assinou. Assim, a parceria com o Brasil vai ao encontro da pretensão chilena de ampliar o seu parque industrial e atrair investimentos estrangeiros.

É claro que as negociações Brasil-Chile ganharam um ritmo mais intenso a partir da crise econômico-financeira mundial que fez acender um sinal de alerta para todos os governos. Mas o que fica evidente é que o Brasil começa a pagar o preço da falta de visão estratégica dos formuladores de sua política comercial. Se tivesse investido mais na formalização de acordos de livre comércio, o País hoje não precisaria do Chile para alcançar de maneira privilegiada os grandes mercados mundiais. E os produtos made in Brazil estariam chegando com maior facilidade aos maiores importadores do mundo.

Seja como for, o que se espera é que essa parceria Brasil-Chile consiga chegar a bons resultados. Afinal, segundo estudo recente elaborado pela Apex-Brasil, com sua economia aberta e estável, o Chile oferece boas perspectivas de investimentos em pelo menos 35 áreas em que os brasileiros estão bem preparados. Será uma maneira de reparar em parte um passo estratégico equivocado.

(*) Milton Lourenço é diretor-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São Paulo-SP, e diretor-administrativo do Centro de Logística de Exportação (Celex).

E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br


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