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Lute por mim, coitadinho de mim

04.03.2014
 
Lute por mim, coitadinho de mim. 19919.jpeg

Quer dizer então que, agora, estamos ameaçando iniciar a 3ª Guerra Mundial, porque a Rússia está tentando controlar o caos num estado falido junto às suas fronteiras - estado que os 'nossos' doidos norte-americanos empurraram diretamente para o buraco?

A última vez que conferi, havia uma lista de países para onde, recentemente, os EUA enviaram soldados, navios armados, aviões armados, e por razões semelhantes às da Rússia na Crimeia: ex-Iugoslávia, Somália, Afeganistão, Iraque, Líbia, nenhum desses sequer próximos das fronteiras dos EUA. Não me lembro de a Rússia ameaçar confrontações militares, por causa dessas aventuras tresloucadas dos EUA.

Os telefones da Casa Branca e dos gabinetes do Congresso têm de estar totalmente congestionados, tantos são os cidadãos norte-americanos furiosos, contra a postura de nossos representantes e governantes eleitos. Tem de haver multidões levantando cartazes na praça Farragut, para lembrar aos hóspedes da Avenida  Pennsylvania n. 1.400 o papel ridículo em que nos puseram.

Os fabricantes de guerras no The New York Times[2] falavam como promotores da Federação Universal de Luta Livre. A matéria de primeira página, ontem, dizia:


"A ocupação russa na Crimeia desafiou o Sr. Obama, mais que qualquer outra crise internacional. E, no olho do furacão, a mesma questão volta, obrigatória: o Sr. Obama terá coragem para enfrentar o ex-coronel da KGB no Kremlin?"


Será que perderam, de vez, as respectivas cabeça-de-ovo? Parece roteiro do velho manual [de Análise Transacional] de Eric Berne, Jogos que as Pessoas Jogam, do 'tipo' "lutem por mim, coitadinho de mim".[3]

O que os EUA e seus paus-mandados na União Europeia têm de fazer é cuidar da própria vida e parar com essas ameaças patéticas. Eles mesmos montaram a cena para o colapso da Ucrânia, ao tentar manobrar o governo como quisessem, financiando um movimento pró-Eurolândia, só para, na sequência, verem seus fantoches pagos (e caros), cederem tudo a uma gangue de neonazistas armados, cujo primeiro ato oficial foi banir do país todos os cidadãos falantes de russo, num país onde há milhões de falantes de russo. Isso nada tem a ver, claro, com o fato de que a Ucrânia, até bem recentemente, foi estado do ex-império russo soviético.

O secretário de Estado John Kerry - um penteado à procura de um cérebro - vai a Kiev amanhã, para fingir que os EUA estão interessadíssimos e preocupadíssimos com o destino da Ucrânia.

Dado que o comportamento dos EUA é tão visível e claramente hipócrita, resta uma perguntinha básica: quais os nossos motivos? Não acho que sejam qualquer coisa além de ostentação internacional - baseada na ilusão de que teríamos o poder e o direito de controlar tudo no planeta, ilusão que, por sua vez, brota do sentimento no qual estamos todos mergulhados, de extrema insegurança, agora que quantidade enorme de más escolhas que fizemos, puseram a mesa para um banquete de consequências.

Os EUA não estão conseguindo sequer dar conta das próprias dificuldades. Ignoramos nossa crise de energia, repetindo para nós mesmos o conto de fadas de que o combustível de xisto nos permitirá continuar a ir de carro até o WalMart mais próximo, para sempre. Escondemos de nós mesmos toda a nossa degenerescência financeira e fazemos vista grossa ante os crimes dos criminosos financeiros. A infraestrutura, nos EUA, está caindo aos pedaços. Estamos construindo uma montanha de aparelhos de vigilância e controle social que faria esverdear de inveja no túmulo o Dr. Joseph Goebbels, enquanto consumimos nosso já esvaído capital social, em estúpidas batalhas sobre confusão 'de gêneros'.

Os russos, por sua vez, têm integral direito de proteger seus próprios interesses junto à sua própria fronteira, de proteger a vida e as propriedades dos ucranianos falantes de russo (os quais, não faz muito tempo, eram cidadãos de uma Rússia maior), para desestimular atividades neonazistas no seu quintal, e, principalmente, para estabilizar uma região que tem história curta e pouca experiência de independência.

Eles também têm de enfrentar a bancarrota da Ucrânia, que talvez seja a principal causa dos atuais problemas. A Ucrânia deve muito à Rússia, mas também deve uma enormidade a uma vasta rede de bancos ocidentais. Ainda não se sabe se o calote dessas obrigações, todas conectadas, pode levar a uma onda de contágio que atinja todo o sistema financeiro global. Falta só um floco de neve para levar a montanha à avalanche.

Bem-vindos todos à era dos estados falidos. Já há vários por todo o mundo, e mais haverá, com a escassez de recursos e de capitais fazendo cair todos os padrões de vida e baixar o horizonte de confiança.

O mundo não está andando na direção em que Tom Friedman e os globalistas supuseram que andaria. Tudo que esteja organizado em escala gigante está hoje por um fio - e, de modo muito especial, os estados-nação. 

Os EUA não são imunes a esse movimento, seja qual for a ilusão que alimentemos ainda sobre nós mesmos, hoje. *****

 


[1] Referência a Games people play, manual de Análise Transacional, de Eric Berne, dos anos 50. Um dos 'jogos' que as pessoas jogam, segundo esse modelo é o de fazerem-se de 'coitados' e estimular outros a lutar pela autodesignada 'vítima' [NTs].

[2] http://www.nytimes.com/2014/03/03/world/europe/pressure-rising-as-obama-works-to-rein-in-russia.html?_r=0

[3] Orig. Let's You and Him Fight. Mais sobre isso, em http://bonow.blogspot.com.br/2007/06/jogos-que-as-pessoas-jogam.html [NTs].

 

 

3/3/2014, James Howard Kunstler , Blog Clusterfuck Nation
http://kunstler.com/clusterfuck-nation/lets-you-and-him-fight/

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3/3/2014, James Howard Kunstler , Blog Clusterfuck Nation
http://kunstler.com/clusterfuck-nation/lets-you-and-him-fight/

 


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