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Matar ou viver em paz?

03.09.2014
 
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Para os filósofos antigos, matar - e o polo oposto, viver em paz - eram coisas curiosamente inter-relacionadas. Esses dois polos aparentemente opostos mantinham-se sobre um fio de navalha: a qualquer instante, um dos polos sempre podia deslizar na direção do outro. Em outras palavras, implica que cada um desses lados (o mecanismo para matar e o mecanismo para fazer-viver) é de algum modo constituído pelo outro e é inerente ao outro. 


Conflicts Forum
25/8/2014, "Comentário semanal" de 8-15/8/2014
http://www.conflictsforum.org/2014/conflicts-forums-weekly-comment-8-15-august/


Quando as energias humanas são distorcidas, diziam os antigos, emerge um ciclo vicioso: a temperatura (o temperamento!) se aquece, produz-se volatilidade, que produz arbitrariedade e intenções flutuantes, intenções frustradas produzem emoções, e emoções inflamadas geram o impulso irresistível para agir (eventualmente, para matar).

Mas o que nós (humanos) enfrentamos nessa 'luta' - quando somos tomados por aquela volatilidade - não é algo 'real'. No Hades, Hércules, quando tenta degolar o Cérbero e demais demônios do 'outro-mundo', é admoestado firmemente por Hermes, que o faz lembrar-se de que aqueles monstros apavorantes que ele tenta matar não são reais. Não podem portanto ser mortos pela espada. Aqueles monstros são imagens: os 'demônios' que Hércules tenta 'matar' brotaram do fundo de sua própria psique.

A chave aí é 'virar tudo': mudar do niilismo do fazer-morrer, para o fazer-viver. Não é mudança fácil (os antigos sempre alertam), mas um ciclo virtuoso está à distância de um fio de navalha; ideia crucial para conseguir essa virada é capacidade para compreender polaridades aparentemente opostas inerentes a todas as coisas: ver com 'dois olhos'.

Aí parece estar o significado da luta recente em Gaza. Israel simplesmente não pode, não consegue, considerar a possibilidade de dar a virada: sair do fazer-morrer (matar) para o fazer-viver. Está condenada, como Hércules, ao impulso de continuar a ferir com sua espada impotente os 'demônios' do 'outro-mundo'.  Mas não tem quem a oriente (um Hermes!), exceto uns poucos, raros homens e mulheres de coragem, e diga aos israelenses que aqueles demônios tornaram-se tão assustadores para os israelenses precisamente porque estão enterrados no fundo da psique coletiva deles mesmos. Não se cogita de ver o outro lado; nenhuma virada parece possível. O temperamento (a temperatura!) dos muçulmanos, em resposta ao massacre sem fim, só se aquece cada vez mais; e sentimentos - já inflamados - exigem ação. A crise sempre se agrava.

E na esfera sunita, o mecanismo niilista está-se abrindo em vários fronts: o ISIL estabeleceu uma cabeça de praia no Líbano, na cidade de Arsal, e a dinâmica adversa desse conflito com o exército libanês já se alastra até Trípoli, a segunda maior cidade do Líbano; até Accra; e até o campo de refugiados Ain el Helewei. O ISIL abriu uma frente contra os curdos da Síria e de Barzani no Iraque (dando a Maliki a oportunidade para oferecer apoio aéreo à guerrilha Peshmerga que combate contra o ISIL); o ISIL continua a consolidar seu 'estado'  (tomando mais campos de petróleo, executando dissidentes e ocasionalmente crucificando um ou outro) no Iraque e na Síria; e já está em luta contra a frente Zarqawi na Líbia.

E o ISIL também  ameaça a Arábia Saudita: "O reino tem procurado ajuda do Egito e do Paquistão. Ninguém sabe exatamente o que o ISIL teria planejado, mas é claro que grupo desse tipo atacará Meca, se puder. Esperamos que eles [ISIL] percam impulso; mas não vamos correr riscos" - disse um conselheiro do governo saudita.

O que estamos vendo aqui - na esfera sunita - é a inversão, de cabeça para baixo, de uma estratégia que foi a pedra de toque do pensando dos EUA e do ocidente em geral para o Oriente Médio por pelo menos 60 anos: a ideia de que a Arábia Saudita poderia 'administrar' o Islã sunita e levá-lo a promover seus interesses, de ter um 'Islã' atenuado, de 'uma voz' (salafista), uma autoridade (o Rei) e uma única leitura do Corão (o que implica controlar também a mesquita) - ao mesmo tempo em que vai facilitando os objetivos políticos dos EUA no Oriente Médio e além.

O Islã sunita foi 'administrado' para conter a influência soviética no Oriente Médio; para minar o ba'athismo e o nasserismo;  para derrotar a União Soviética no Afeganistão; para conter o Irã; para minar o presidente Assad na  Síria e para lançar um golpe de estado contra o governo do primeiro-ministro Maliki no Iraque.  Esse relacionamento íntimo efetivamente ligou o Ocidente intimamente à segurança do Golfo e, mediantes suas diversas intersecções (Sandhurst, West Point, Wall Street e a City), os governos ocidentais acabaram por assimilar profundamente a 'narrativa' do Golfo. 

Passar à Europa e aos EUA o bastão da 'narrativa' saudita facilitou pintar o rival regional dos sauditas (Irã) como o 'outro' ameaçador, perigoso, aos olhos ocidentais.

Durante a maior parte desse período, a Arábia Saudita, sim, administrou e financiou o 'gênio' do radicalismo sunita incendiário, na direção do que interessava à Arábia Saudita e aos EUA. Até a própria Al-Qae'da realmente se enquadrou e ali permanece, dentro do paradigma wahhabista. Mas o ISIL, não. O ISIL é diferente.  

O ISIL está realmente em guerra contra o Reino Saudita, diferente do falso conflito que 'havia' entre sauditas e o Bin-Ladenismo. O ISIL acintosamente descarta os três pilares da legitimidade e da autoridade dos sauditas, e reinterpretou a história islâmica para fazer-lhes guerra e tomar-lhes o poder: os estados do Golfo estão exatamente na linha de tiro do ISIL.  O 'gênio' converteu-se no senhor que, originalmente, o libertara da lanterna onde vivia preso.

O que todos esses conflitos disparatados no Oriente Médio têm em comum? Todos eles são conflitos profundamente antissistema, cada um a seu diferente modo. Todos eles visam a pôr abaixo a velha ordem. Em Gaza, as pessoas já não suportam viver sob sufocamento. Querem romper o cerco - mesmo que lhes custe preço altíssimo, em sofrimento pessoal. A posição do Hamás (ala militar que está comandando a ação) é clara: nada mais de 'remendos' distribuídos pelo Egito ou mediadores ocidentais: "ponham fim à prisão de Gaza". Israel talvez até deseje, de certo modo, fazer exatamente isso, mas não pode. 

O ISIL também está tentando pôr abaixo a velha ordem (a Ordem Árabe) e tomar o poder pela violência, usando os métodos horrendos dos dois primeiros Califas Abu Bakr e Omar (ou táticas de Ghengis Khan, de usar o medo absoluto para avançar sobre as fortalezas do poder, sem muito trabalho).  Irã e Síria desafiam a ordem global - e sentem em Rússia e China um parceiro poderoso para essa empreitada.

A 'velha ordem' está visivelmente ruindo - e como um dos convidados de recente seminário desse Conflict Forum observou acuradamente, a 'nova ordem' será forjada por aqueles estados cujos populações mostrem-se cheias de vida e vitalidade; que conservaram a própria soberania ou que a reconquistaram - e que comandem fontes de energia e outros recursos.

Não surpreende que Washington não saiba o que fazer sobre Gaza, ISIL, Síria, Líbia, Egito, etc., etc.  Os EUA estão em declínio, a ordem global faliu; e Arábia Saudita e Israel (os dois 'escritórios de negócios' dos EUA na região) estão ambas em confronto com o atual governo dos EUA, e está totalmente incapacitadas para qualquer 'virada' que lhes permitisse emergir da crise. Para ser justo: há bem pouco que os EUA possam fazer.

Qual então a importância de todo esse tumulto no Oriente Médio bizantino, para os americanos ou europeus médios? Por que ele/ela não pode simplesmente ignorar aquele tumulto? 

A resposta é que o maior risco que o sistema financeiro global corre não é a recessão, mas sua exposição ao risco político.  

O pool de dinheiro líquido real dos Estados do Golfo é parte absolutamente indissociável de um sistema financeiro alavancado e endividado até os olhos. O Golfo é essencialmente o único grande pool de 'dinheiro livre' que restou no mundo. O resto não passa de um hiperpesado edifício 'Ponzi' de crédito alavancado globalizado, que se equilibra sobre uma base mínima de 'dinheiro (europeu e norte-americano) hipotecado'. O sistema global simplesmente não suportará uma quebradeira do Golfo ou regional [orig. a Gulf or regional meltdown]. Agora, sim, esse é risco real: em Gaza, no ISIL, numa grande confrontação no Iraque que arraste para lá a Arábia Saudita e o Irã - tudo isso, agora, é possível.

E é essa 'ameaça' de risco político e a natureza de nosso sistema financeiro global que aproxima e ata um ao outro os dois riscos de conflito: no Oriente Médio e na Ucrânia - como uma única categoria de 'exposição política'.

Um sistema financeiro global pode dar aos EUA poderes não controláveis para 'disciplinar' outros estados; mas precisamente porque é global, o sistema se torna altamente vulnerável a crises do Oriente Médio que ameaçam aquele seu pool de dinheiro no Golfo - ou causam torvelinho mediante o medo na mesma região. Esse 'pool' tornou-se inerente, indissociável de Wall Street, da City de Londres e da estabilidade financeira do ocidente.

É o sistema financeiro global também - por causa da atual centralidade nos EUA e no dólar - que conecta diretamente a Ucrânia aos conflitos centrais no Oriente Médio. Impuseram-se sanções à Rússia; mas ao sancionar a Rússia, a Europa e os EUA geraram o ímpeto para que Rússia e China desenvolvessem um comércio multimonetário paralelo ao dólar, e para empurrar o renminbi na direção de tornar-se moeda paralela de reserva. O quanto e com quanta determinação Rússia e China meterem o pé por essa trilha terão implicações profundas para o Oriente Médio.

O conflito na Ucrânia ressoa fortemente pelo Oriente Médio

Síria e Irã (e outros) facilmente leem a intervenção ocidental na Ucrânia como repetição de outras intervenções comandadas pelo ocidente e atentadas contra seus países. Depois que sanções relacionadas à Ucrânia foram impostas à Rússia, a Rússia, em movimento de retaliação, moveu-se para estrategicamente mais perto de Irã, Síria, Iraque e Egito.

A criação e o início de qualquer sistema financeiro paralelo permitirá ao Irã livrar-se dos tentáculos do Tesouro dos EUA e passar ao largo do sistema financeiro baseado no dólar; o mesmo vale para a Síria. E não há mudança no sistema financeiro global que não afete os Estados do Golfo. A fatia em dólares das reservas globais já encolheram para 61%, dos mais de 72% em 2001. Se Rússia e China começam a negociar energia fora do sistema baseado no dólar, a OPEC não conseguirá ignorar esse desenvolvimento.

Em resumo: as ondas geradas pelas sanções contra a Rússia terão forte influência para definir a região: o quanto a Rússia estiver à frente, quando reemergir depois desse conflito, será o quanto os sauditas e os Estados do Golfo estarão enfraquecidos. O grau em que a Rússia reorientar sua política energética em consequência das sanções, será o grau em que se redefinirá a direção dos futuros oleodutos da bacia Iraque-Irã e a orientação da energia de toda a região. (o Iraque não esquecerá a rápida ajuda que a Rússia garantiu-lhe, depois do assalto do ISIL ao Iraque).

Dessa ampla categoria de risco político dentro do sistema financeiro global, o efeito do potencial para escalada que se constata no conflito da Ucrânia (e seu impacto no Oriente Médio) é o mais perigoso. [A análise de situação de Conflicts Forum, datada da 1ª quinzena de agosto, desatualizou-se e foi aqui omitida. Informações atualizadas podem ser encontradas em http://redecastorphoto.blogspot.com.br/ (NTs).]  

Putin parece estar jogando no longo prazo: a Rússia anunciou contramedidas muito cuidadosamente construídas. Interessante, concentram-se  em produtos agrícolas, muito mais do que em produtos de alto valor tecnológico (o que é um modo de preservar a força das exportações da Alemanha para a Rússia). (...)

O 'cisne negro' no contexto europeu parece ainda ser o ataque ao voo MH17 (sic). Ainda não se viram provas que expliquem o destino do avião. Aconteça o que acontecer, nada alterará o curso da narrativa dos EUA (como o professor Stephen Walt escreveu recentemente, "os neoconservadores são sempre lépidos ao espancar a verdade, para promover seus objetivos políticos"), mas muita coisa pode acontecer que afete a opinião pública alemã. Depois do escândalo da Agência de Segurança Nacional dos EUA, os alemães mantêm-se com um pé atrás, em tudo que envolva a veracidade de informes sobre a economia dos EUA. *****

 


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