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Geopolítica e geoestratégia

03.09.2008
 
Pages: 12
Geopolítica e geoestratégia

Por Humberto Dalsasso (*)

Ao discutir geopolítica e geoestratégia, o economista Humberto Dalsasso discute a exploração dos recursos minerais brasileiros. "Ter lucro não é pecado", afirma. "Queremos, todavia, ressaltar a necessidade de que isso seja feito com responsabilidade e respeito à natureza e, consequentemente, às gerações futuras".

A análise superficial da economia brasileira leva-nos a nos contentarmos com seu desempenho dos últimos anos, mais precisamente a partir de 1994. O fantasma da inflação foi domesticado e o PIB mostrou algum crescimento. Este, no entanto, a partir de 1997 a 2002 e, acentuadamente em 1999, pela desvalorização cambial, em dólar, entrou em declínio. A partir de 2003 apresentou crescimento moderado, apesar da valorização do Real e da mudança na metodologia de cálculo que elevou os números do PIB em, aproximadamente, 11%.

Todavia, quando analisamos mais profunda e qualitativamente, com isenção político-partidária, vemos outra realidade, apesar de o resultado genérico do último qüinqüênio ter sido melhor do que a expectativa da sociedade diante do quadro político. Ainda que analisar, ponderar ou criticar seja mais fácil do que governar, isto, feito com imparcialidade, é necessário e conveniente para o feed-back, a auto-análise e o eventual reposicionamento dos governantes. É neste sentido que fazemos.

O último qüinqüênio foi generoso com a economia brasileira, não nos expondo a nenhuma catástrofe – enchentes, secas, temporais – de significativo impacto. A demanda global favoreceu a exportação de commodities e o desequilíbrio entre oferta e demanda elevou os preços. O aumento do crédito expandiu a demanda interna, todavia, se a expansão entrar no espaço da irresponsabilidade, a inadimplência e suas conseqüências poderão ter alto custo. É bom que se reconheça que o brasileiro tem alta propensão a consumir e, com frequência, não planeja suas finanças pessoais. Isto aliado à oferta tentadora de crédito aumenta os riscos. Sirvam-nos de baliza os exemplos já mostrados na história econômica, de que é protótipo a recente crise sub-prime americana

Outros fatores – carga tributária, taxa de juros e de câmbio, encargos sociais - estão debilitando a indústria brasileira a ponto de muitas delas precisarem instalar-se em outros países, predominantemente na China, não puramente por uma questão de logística, mas por dificuldades competitivas. Isto tende a enfraquecer, neutralizar ou anular o momento favorável da economia brasileira. Com isso, não só os empregos estão sendo deixados de ser criados no Brasil como muitas dessas fábricas aqui poderão virar simples unidades de montagem. Outro risco dessa imperiosa decisão é a absorção externa do know-how de nobres produtos brasileiros com a posterior “expulsão econômica” dessas empresas daqueles países. Hoje, no entanto, foi a alternativa de sobrevivência encontrada. O fenômeno da globalização também não pode ser desprezado.

Outro fator que contribuiu para ocultar essa pressão e dar a idéia de que a economia brasileira está crescendo consistentemente foi o significativo aumento dos preços das commodities minerais – minérios e petróleo – que, antes deste qüinqüênio, eram irrisórios, quase doados aos importadores estrangeiros, a ponto de, nas décadas anteriores, o Japão fazer aterro com minério de ferro brasileiro.

O crescimento econômico e demográfico global, com suas crescentes necessidades, vem expandindo geometricamente a procura por minerais. O Brasil, beneficiado pela generosa natureza, tem sido mirado, paquerado, desejado e até seduzido por essas nações demandantes, predominantemente a China, que quase já exauriu suas reservas naturais e reduzindo seu solo cultivável.

Que esta paquera exista é bom e natural. Relacionar-se com o mundo é recomendável. O que preocupa, no entanto, é o eventual aumento da ganância privada de colocar o lucro como fim último e superior e o entusiasmo ingênuo e irresponsável do governo em desconhecer que os recursos naturais, exauríveis que são, constituem recursos do patrimônio soberano e, como tal, pertencem à Nação, que tem a responsabilidade de zelar pelo bem-estar das gerações atuais e futuras. Aí, então, é grande a responsabilidade, não só dos dirigentes empresariais mas, principalmente, dos governantes. Ter lucro responsável é bom e não é pecado.

Concluir o mandato com o reconhecimento de “estadista” era não só a aspiração de todo governante sensato, mas também a satisfação da sociedade. Isto, no entanto, tem sido raro no Brasil nas últimas décadas embora se mostre cada vez mais necessário, tanto pela competitividade global evolutiva como pela crescente necessidade dos recursos naturais não renováveis.

Quando vemos o entusiasmo – não só das empresas mas também dos governantes – pela crescente demanda externa por esses recursos lá faltantes (minérios, petróleo, água, etc.) somos levados a refletir se essa ganância por lucros imediatos, que nas empresas constitui eficiência, no longo prazo não se traduzirá por irresponsável “explotacão”, merecendo a justa condenação pelas gerações futuras.

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