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Resposta a Immanuel Wallerstein

03.02.2014
 
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Inscrição de protesto (e esperança) no muro construído por Israel para segregar territórios palestinos.


Sem considerar as causas da situação atual do Oriente Médio, texto pode levar o leitor a um entendimento errado e superficial do que acontece lá.


Por Baby Siqueira Abrão*


Immanuel Wallerstein, em seu recente artigo sobre o Oriente Médio, publicado em Outras Palavras, parece contradizer o próprio pensamento, fundador de uma análise ampla e compreensiva do mundo globalizado. Sua visão se mostra problemática já no início do texto, quando ele diz que do Oriente Médio se podia prever alguma coisa no passado, dadas as "posições claras" de seus atores.Não há necessidade de nenhuma pesquisa aprofundada para saber-se que nunca houve clareza de posições políticas, nem nos atores orientais, nem naqueles que vivem em outros lugares do mundo. A política, particularmente a internacional, se faz no escuro; o que se diz quase nunca é o que realmente se pensa. Trata-se do pragmatismo de sobrevivência política, cujos bastidores, para desamparo dos analistas políticos, nem sempre correspondem ao que acontece no palco.


Afora isso, o Oriente Médio sempre foi um mistério para a maior parte dos analistas ocidentais. Edward Said chamava "orientalismo" a prática de avaliar aquela parte do mundo sob a perspectiva  ocidental, o que invariavelmente criava, e cria, distorções. A pluralidade de divisões dentro do islamismo, as particularidades culturais de cada grupo populacional - não podemos dizer que são particularidades de "cada país" porque as fronteiras não separam grupos de formação muito antiga, cujos membros guardam com orgulho o sentimento de pertencimento, sentimento mais forte do que o "nacionalismo" -, as diversas gradações da influência de tradições diferenciadas, as lideranças políticas locais muitas vezes em franca oposição a governos impostos ou cooptados pelas potências ocidentais são alguns dos aspectos que tornam o Oriente Médio um livro com muitas escritas, muitas narrativas, não uma massa homogênea, não um relato linear.


O que Wallerstein faz é atualizar posições e questões que provêm de antigas divisões políticas. O que ele não faz - e aqui está um sério problema de seu artigo - é dizer que a Al-Qaida foi criada pela CIA quando da invasão soviética no Afeganistão, e que alguns analistas políticos defendem que criador e criatura mantêm laços estreitos até hoje. Mais sério ainda, ele se exime de analisar um fato crucial: o papel de um ator que se impôs à região, inaugurando nela um fascismo à europeia, um racismo de origem nazista baseado na suposta superioridade de uma "raça" que, na verdade, nunca existiu: o movimento sionista.


Como apontam historiadores como o israelense Schlomo Sand, os judeus formavam uma comunidade religiosa que, ao se espalhar pela região (não exatamente por perseguição dos romanos, como afirma a mitologia sionista, mas pela necessidade de encontrar outros locais para a pastagem do gado, terrenos mais férteis, condições de vida mais favoráveis etc.), levaram consigo sua crença, divulgando-a e convertendo outras populações. Isso pode explicar as diferenças encontradas nos vários grupos que aderiram ao judaísmo. Mais: análises de DNA de judeus que vivem em Israel indicam que suas raízes estão no leste europeu e não no Oriente Médio. Uma das hipóteses é que eles descendam dos casares, povo da Casária convertido ao judaísmo por seu rei séculos atrás, e que se dispersou pela Europa oriental depois que seu reino foi tomado por povos vindos de outras partes do mundo.


Judeus casares não têm nenhuma ligação genética com os judeus naturais da Palestina (esses sim, semitas) ou com os sefarditas, que seguiram ou voltaram para a Palestina quando os mouros (árabes) foram expulsos de terras espanholas. Ressalte-se que sob o domínio mouro os judeus sefarditas jamais tiveram problemas em função de sua fé. Foi uma época de florescimento da cultura árabe e da cultura sefardita, que influenciaram quase todos os aspectos da vida europeia, e de paz entre muçulmanos e judeus. Ou seja: as análises do DNA provam que os judeus convertidos do leste europeu, que formaram e ainda formam o sionismo, não têm nenhuma ligação genética com os judeus cujos descendentes ainda vivem na Palestina, e que são marginalizados ainda hoje pelos asquenazis, provavelmente descendentes dos casares.

É importante lembrar que na Antiguidade os conceitos de povo e de nação nem mesmo existiam, ao contrário do que pregam os mitos sionistas, baseados numa interpretação política e colonialista da Torá (o Antigo Testamento dos cristãos), propositalmente distorcida para atender a critérios que "justifiquem" a conquista da Palestina - conquista que na verdade se deu em consequência do desejo capitalista de ampliar mercados e de controlar uma região rica em petróleo. Uma das provas disso é a própria Declaração Balfour, de 1917 - em que a Inglaterra concordava em ceder aos judeus um país que não lhe pertencia, a Palestina -, e que foi dirigida a ninguém menos que "lorde" Rothschild, na época um dos banqueiros mais  influentes do planeta, tradição que a família mantém.


Wallerstein nem mesmo cita o plano sionista de estimular a divisão territorial do Oriente Médio em várias pequenas nações, em conflito umas com as outras. Como afirmam documentos sionistas de meados do século passado, essa solução, politicamente antiquíssima - "dividir para reinar" -, lhes daria mais facilidade para atingir o objetivo de controlar política e militarmente a região.

Governos-títeres, dependentes do sionismo nas áreas financeira e militar, e povos divididos, levados ao sectarismo religioso e à violência, são a fórmula perfeita para o domínio da extração e da distribuição do petróleo e do gás do Oriente Médio, sem falar nas matérias-primas para a produção de drogas (cujo negócio saiu do zero, quando os EUA invadiram o Afeganistão, para uma indústria lucrativa na atualidade) e na venda de armas e munição que a manutenção de conflitos armados fabricados coloca em alta contínua.


Por fim, é surpreendente constatar como um pensador de base marxista, antiglobalização, acaba se rendendo ao simplismo de um artigo breve, que carece de dados fundamentais - como o impacto da entrada do sionismo no Oriente Médio e suas consequências - e que parte de um pressuposto historicamente falso.

O resultado foi uma análise incompleta, sem raízes nas causas da situação atual do Oriente Médio e por isso mesmo capaz de levar o leitor a um entendimento errado e superficial do que acontece lá. Algo muito distante daquilo que se espera de um intelectual como Immanuel Wallerstein.


*Baby Siqueira Abrão, jornalista, ex-correspondente no Oriente Médio, pesquisadora da história e da política daquela região. 


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