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Desconstruir o falso para construir o novo

02.10.2009
 
Pages: 123
Desconstruir o falso para construir o novo

A despeito da incontestável hegemonia de uma espécie de restauração neoliberal da vida pública - marcada essencialmente pela imposição da falsa dicotomia entre a velha e a nova direita nas eleições presidenciais de 2010 -, há um clima crescente de intensa reflexão na esquerda revolucionária brasileira.

Está em pauta a busca das mais eficazes alternativas ao imbróglio em que se viu mergulhada a partir da extinção do chamado "socialismo real" no leste Europeu. Aquilo que lá existia atendias às exigências, como modelo, de muito poucos. Mas constituía, para os minimamente informados sobre a realidade da distribuição de forças entre as potências mundiais, um contraponto importante à permanente ameça belicosa do imperialismo ocidental. E, bem ou mal, estabelecia pontos de referência marcantes em nosso debate interno.

Não são fáceis os obstáculos a superar, no Brasil de hoje, para que se retome um clima de contestação transformadora presente, por exemplo, na quase totalidade da década de 80, com mergulhos na de 90.

A nova direita, ora ocupando o Planalto, e compondo as mais esdrúxulas alianças parlamentares, demonstra sua competência de servir às classes dominantes; de colocar o aparelho do Estado a seu inteiro dispor, através de uma desavergonhada política macroeconômica. Mas produz movimentos contraditórios, supostamente voltados ao atendimento de demandas dos que, naturalmente, se opõem à ordem vigente.

Movimentos que não abalam em nada os interesses essenciais dos de cima, mas que exercem especial poder de imobilização sobre os que mais necessitam se opor a tal ordem. Aos que deveriam compor, por militância ativa, ou mesmo por simples apoio simpatizante, o campo da insurgência. Movimentos, enfim, que introduzem o falso conceito de estar nessa nova direita - na prática, agente mais eficaz na gestão executiva dos propósitos das classes dominantes do que a velha direita truculenta - o limite de ação de uma "esquerda possível" , considerando os marcos da fase atual da globalização capitalista.

Para além das políticas assistenciais imediatistas, estabelecidas desde o primeiro mandato, o comportamento recente da sua diplomacia em relação ao golpe em Honduras é um exemplo incontestável.

Inscreveu-se no protesto internacional unânime - inclusive do Império, que mudou métodos para preservar a estratégia de sempre -, manifestando apoio incondicional ao retorno de Zelaya à presidência da República. Foi mais longe, na simbologia: deu-lhe abrigo na própria embaixada em Tegucigalpa. Algum problema para os grandes banqueiros ou para o agronegócio, setores hegemônicos do grande capital, que dão total sustentação à nova direita? Nenhum. Mas imenso problema para os porta-vozes da velha direita truculenta que mal disfarçam sua simpatia pelo golpe inaceitável para todos; da ONU à desacreditada OEA; de Obama a Chavez.

A despeito de tal unanimidade há sempre uma página ou coluna do Globo para tentar dar nó em pingo d'água, ao buscar fundamentos jurídicos para provar que golpe não houve.

A esquerda combativa, por causa disso, deixa de apoiar a iniciativa do governo da nova direita? Nem pensar. Deve aliar-se incondicionalmente aos segmentos hondurenhos, e a seus aliados internacionais, no apoio à luta pela imediata recondução de Zelaya à presidência do país. Deve aplaudir quando o chefe da nova direita, do púlpito da Assembléia Geral da ONU, dá prioridade a esse tema, mesmo que o discurso irrite os verdes e sua candidata no pleito de 2010, que assim como seu principal porta-voz no Congresso, não vê outro tema essencial para o combate à barbarie do que os exclusivamente vinculados à busca de soluções técnicas para a preservação ambiental.

Evidentemente existem razões ideológicas consolidadas para essa aversão a Zelaya.

Porque foi das forças progressistas da América Latina que partiu o apoio material inicial a Zelaya. Tais forças - Chavez à frente - jogaram na contradição gerada a partir da introdução dos novos métodos de intervenção externa na Casa Branca para entrar decisivamente no embate. Afinal, não é invocando "valores democráticos" burgueses que o Império veta o retorno de Cuba à OEA?

A velha e truculenta direita; a que contesta a nova direita não por razões programáticas, mas para lhe disputar o controle sobre o Tesouro e os cargos diretivos no aparelho do Estado e nas poderosíssimas empresas sobre controle estatal; essa entre em desespero. Insiste em justificar o afastamento do presidente Zelaya, por ter cometido o "crime" de propor uma consulta popular sobre alterações na Constituição. A mesma velha direita que não viu nada demais na manobra bastarda, cheia de indícios sobre compra de votos no Congresso, do governo Fernando Henrique Cardoso, quando propôs a emenda permitindo sua reeleição. Mudança constitucional inimaginável, quando se considera que a própria ditadura resultante do golpe de 64 nunca descuidou de trocar de generais a cada quatro anos.

Nesse contexto cheio de jaça, até os menos dotados são capazes de gerar um repente: É tudo na mesma medida/ Aqui mais verde, ali mais poluído./ Mas, no fundo, tudo no mesmo sentido:/ defender o capital apodrecido.

Fica, então, a equação que a esquerda brasileira precisa elucidar muito rapidamente. Qual é a prioridade? Concentrar esforços na elaboração de um desenho definitivo da utopia; do que entendemos como modelo socialista, independentemente do determinismo aí embutido? Ou concentrar esforços na elaboração de ações táticas que desconstruam a ordem vigente e sua falsa dicotomia?

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