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A maior depressão da História

01.03.2009
 
Pages: 12
A maior depressão da História

 Adriano Benayon*

O sistema mundial de poder determina até as palavras que os âncoras de televisão e os repórteres das redes jornalísticas têm de usar. É manifesto desde, pelo menos 2007, o colapso do sistema financeiro e o das moedas mundiais de reserva, como o dólar, o euro, a libra e o franco suíço. Diante disso os comunicadores só falam em crise, como se se tratasse de algo passageiro.

Depressão é outra palavra banida. Está claríssimo, desde 2008, o ritmo crescente da derrocada econômica e social, que significa o início da depressão, que será provavelmente mais longa e profunda que a que durou de 1930 a 1943. Os papagaios do sistema continuam falando só em recessão e dizendo que ela poderá terminar este ano ou no próximo.

Esses colapsos e a depressão, que faz multiplicar os sofrimentos dos povos, decorrem das manipulações praticadas por concentradores financeiros. Estes forjaram ganhos em proveito próprio sem qualquer relação com atividades produtivas, acumulando mais finança para incrementar o poder de que dispõem e de que abusam.

Em dois artigos, intitulados “Liberalismo, produtor de depressões”, publicados em junho de 2002 (Tribuna da Imprensa 16.06.2002), recordei a origem delas: a concentração da economia e a conseqüente queda nos investimentos produtivos e em infra-estrutura. A oligarquia apossa-se do controle efetivo sobre o Estado, que se torna seu dócil instrumento.

Utiliza ela, ademais, o controle sobre os centros de formação ideológica e de opinião para disseminar a crença nas virtudes do mercado como ordenador da vida econômica. Não é que este não teria virtudes, se fosse competitivo e livre. Acontece, porém, que a estória de mercados livres só existe na cabeça dos otários doutrinados. O que chamam de mercado é dominado e manipulado por pequeno número de agentes oligárquicos.

Com os mercados à sua mercê, montam máquinas de ganhar montanhas de dinheiro sem gerar em troca qualquer coisa útil. Criam e concentram quantidades inimagináveis de ativos financeiros, enquanto perdem poder aquisitivo as pessoas engajadas em atividades produtivas, como assalariados e autônomos. Isso é apenas o aperitivo da colossal desapropriação de ativos, que, fatalmente, ocorre quando estouram as bolhas especulativas. Logo depois o prejuízo vai aumentar quando das reformas monetárias que irão causar prejuízos na ordem de pelo menos 90% do valor dos atuais dólares, euros etc.

Essa é a seqüência terrível da destruição da economia popular, com enorme desgaste das classes médias. A depressão da economia real se reveza com a desordem financeira.

A questão central é o controle do Estado, ligada ao controle da opinião. A desmoralização total do sistema não é percebida pela maioria dos “cidadãos” das pseudodemocracias, como é nos EUA e nas demais “democracias” capitalistas (contradição de termos).

Reitero: as sociedades só poderão prosperar, e suas culturas só poderão propiciar progresso material e espiritual, se prevalecer a economia de mercado combinada com o controle do Estado sobre os serviços públicos, inclusive bancos, a serviço da sociedade. Indispensável também que a economia de mercado seja preservada por leis capazes de impedir a concentração capitalista.

É a prevalência dos concentradores e a submissão das sociedades que explica os berrantes absurdos da resposta dos governos ao colapso financeiro: 1) capitalizar com dinheiro público os bancos engolfados nos ativos tóxicos gerados por ganância e por incompetência; 2) adquirir esses ativos a preço muito mais elevado que o valor de mercado. Em suma, os governos estão fazendo transferir renda da sociedade em favor dos concentradoras, na ordem de dezenas de trilhões de dólares, euros etc.

Isso acarreta a emissão de quantidades jamais vistas dessas moedas. O Dr. Krassimir Petrov, em artigo publicado pelo Global Research, comparou indicadores recentes com os dos anos 20 do Século XX, ou seja, quando a esbórnia desses anos desembocou na Grande Depressão. As verificações de Petrov levaram-no a concluir que a iniciada em 2008/2009 deverá superar aquela em gravidade e duração.

Como Petrov assinala, quanto mais crédito numa economia, maior é a alavancagem. Ora, o percentual do crédito nos EUA em relação ao PIB ultrapassou em muito os de antes da Grande Depressão, os quais, nos anos 30, chegaram a 250%. Em 1982 era ainda de 130%, tendo subido em flecha para 350% em 2008. [1]

Pior que isso é a “securitização” de dívidas. Os derivativos têm estado na ordem de US$ 600 trilhões, segundo estatísticas do BIS. A cifra pode ser US$ 1 quatrilhão. Grande parte dessas quantias jamais vistas é de títulos mal sustentados ou sem lastro algum.

À medida que os títulos podres chegam ao vencimento, resultam perdas nos balanços de bancos e fundos. Então, os bancos centrais e os Tesouros das pseudodemocracias emitem quantidades fantásticas de moeda, para socorrer os concentradores. Apesar desse estupendo potencial inflacionário, a alta de preços ainda não se manifestou nos países epicentros do colapso. Por enquanto, manifesta-se a deflação em alguns deles, em função da queda da demanda por bens e serviços, por causa do desemprego galopante e da parada do crédito.

Mas a hiperinflação é questão de tempo. Ela está pronta para entrar em cena quando os bancos, abarrotados de dinheiro público, forem forçados a fazer empréstimos à economia produtiva e para a infra-estrutura, e quando forem realizados programas sociais de socorro às dezenas de milhões de desempregados e outros atingidos pela depressão.

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